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Além das razões históricas, critérios da Capes levam a maior uso da matemática.
Ênfase na matemática afeta cursos de economia
Por Célia de Gouvêa Franco, De São Paulo
"Há algo errado com um ciência que há dois séculos discute ardentemente se deve ou não ´matematizar´ os seus procedimentos de construção e de exposição teórica. É uma velhota que se porta como adolescente às vésperas do primeiro baile: não sabe se os rapazes - a turma das ciências já consolidadas - vão tirá-la para dançar. Provavelmente levará tábua."
Os comentários, de Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Faculdades de Campinas, que ele ajudou a fundar há dois anos, indicam que há muito se trata da questão, mas talvez nunca como agora estão evidentes os efeitos da "matematização" do ensino de economia no Brasil. Os cursos de graduação e pós-graduação passaram a dar nos últimos anos uma ênfase ainda maior em disciplinas com forte componente matemático.
Um dos objetivos dessa "matematização" é a procura de maior rigor - segundo Belluzzo, "os economistas gostariam de ser os físicos das ciências sociais". Para muitos, estaria havendo um exagero no uso da matemática na economia.
No livro "Conversas com Economistas Brasileiros", vários dos entrevistados concordam com essa avaliação - Paulo Nogueira Batista Júnior, da Fundação Getulio Vargas (FGV), por exemplo, ironiza que a Economia está se tornando um ramo "não muito nobre" da Matemática e da Estatística Aplicada.
Belluzzo, por sua vez, comenta que "para explicar de maneira clara, muitas vezes você tem que usar um modelo matemático. Mas os economistas freqüentemente se esquecem de que a economia é uma forma de conhecimento que requer o confronto com a experiência".
Além das razões históricas para que o ensino de economia seja periodicamente mais ou menos influenciado pela matemática, Carlos Azzoni, chefe do departamento de Economia da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo, tem uma explicação mais recente para essa tendência.
Para ele, em parte o enfoque "matemático" dos cursos e dos projetos tocados por alunos e pesquisadores é conseqüência também dos critérios da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o órgão governamental que acompanha e avalia os cursos de pós-graduação, dando notas para esses cursos.
Um dos critérios mais valorizados pela Capes nas suas avaliações é a publicação de trabalhos dos professores e alunos no exterior, mas hoje, segundo Azzoni, os brasileiros dificilmente conseguem que seus estudos sejam aceitos pelas revistas internacionais de economia de primeira linha a não ser que suas pesquisas sejam embasadas por cálculos matemáticos. Nos últimos anos, acentuou-se a tendência das publicações estrangeiras de não se interessarem por estudos sobre problemas de um país em desenvolvimento ou sobre questões regionais.
Nesse contexto, têm maiores chances de publicação no exterior os trabalhos de econometria, a área da economia voltada à descrição de relações econômicas por meio de modelos matemáticos e à estimação dos parâmetros desses modelos, com uso de dados estatísticos. Um levantamento feito pelo próprio Azzoni comprova que os brasileiros que mais publicaram no exterior, nessa áreas foram os econometristas, com raras exceções.
Como resultado disso, alunos e professores de economia se interessam cada vez mais por temas que podem ser medidas matematicamente, deixando de lado, dessa forma, trabalhos que enfoquem questões muito específicas do Brasil ou que não podem ser tratadas de forma adequadas por modelos matemáticos. Por isso, é mais fácil atualmente encontrar economistas que acompanham a conjuntura brasileira trabalhando em bancos e em consultorias do que nas universidades.
Antonio Barros de Castro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lembra, por sua vez, que os economistas mais identificados com escolas de pensamento à esquerda acabaram deixando de enfocar com maior freqüência os problemas brasileiros, nos últimos anos. Durante os anos de ditadura militar, estudar esses problemas era inclusive questão de honra; hoje, outros temas ganharam mais espaço nas universidades e na imprensa.
A tendência de "matematizar" o ensino de economia não é, obviamente exclusiva do Brasul. Em outros países, notadamente na França, foram feitas manifestações de estudantes e de professores contra essa tendência. Um manifesto recente propondo um debate sobre o ensino de economia, escrito na França mas que passou a circular em muitos países, destaca que o uso da matemática na economia não deveria ser um fim em si mesmo, mas sim uma ferramenta a mais para os economistas.
A polêmica foi enriquecida por contribuições economistas bastante conhecidos internacionalmente, como Robert Solow, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, e James K Galbraith,da University of Texas, com opiniões muito diferentes entre si.
Reestruturação rende prêmios
A reestruturação no departamento de Economia da Faculdade de Economia e Administração da USP começa a dar resultados. Nos últimos meses foram anunciados os resultados dos principais prêmios acadêmicos do ano passado nessa área e a FEA se destacou.
Ficou, por exemplo, com os primeiro e terceiro lugares na premiação do Conselho Regional de Economia às melhores monografias de graduação no Estado de São Paulo assim como com a primeira colocação no principal prêmio para dissertações de mestrado no país, oferecido pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Dois professores da FEA foram também premiados, pela Associação Nacional de Centros de Pós-Graduação em Economia e pela Secretaria do Tesouro Nacional.
As principais medidas do projeto de reestruturação do departamento estão sendo a contratação de professores, como as do cientista político José Augusto Guilhon Albuquerque e do economista Otaviano Canuto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Além disso, foram contratados quatro jovens professores, todos com cursos de pós-graduação no exterior.
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