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Agora, o mundo precisa é de economistas
ANATOLE KALETSKY
The Times
Não agüento mais. O anúncio, divulgado terça-feira, de um salto recorde na confiança do consumidor, nos Estados Unidos, foi a gota d'água.
Portanto, deixem-me contar o que tenho em mente há quase dois anos: se você quiser consertar um cano de água, chame o encanador.
Se quiser saber o que está acontecendo na economia, deve perguntar a um economista, e não a uma série de empresários, corretores de câmbio e políticos que dominam o debate político na Grã-Bretanha.
Durante a maior parte do ano passado eu aborreci os leitores com artigos repetitivos, explicando por que uma recessão era quase impossível, ao menos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Quando permaneci fiel a essa previsão após os ataques terroristas de 11 de setembro, minha caixa de correspondência ficou repleta de e-mails zombeteiros e até ofensivos enviados por empresários e investidores no mercado de ações. Fui acusado de ser "um economista típico", vivendo complacentemente em uma torre de marfim, brincando com estatísticas sem sentido, que ignoram o "mundo real" dos negócios e finanças.
Eu estava em falta, até certo ponto. Não fui suficientemente complacente. Eu deveria ter dado ainda menos atenção aos industriais e financistas, que insistiam em afirmar que a economia não poderia se recuperar após os golpes sucessivos do malogro das empresas pontocom; o colapso dos gastos de capital e as dispensas de funcionários que se seguiram aos acontecimentos de 11 de setembro.
Afinal, disseram os capitães da indústria, o desemprego está aumentando muito e os investimentos de empresas estão muito baixos. Em vista disso, como a economia poderia se recuperar? Aparentemente não lhes ocorria a idéia de que, se essas alegações fossem verdadeiras, as recessões durariam para sempre.
Os economistas sabem, naturalmente, que a redução das taxas de juros e o aumento do déficit público quase sempre podem contrabalançar os efeitos depressivos do desemprego. É só quando os bancos centrais e os governos se recusam a usar as alavancas fiscais e monetárias, como ocorreu recentemente na Europa e no Japão, que um choque como o colapso do mercado de ações ou um atentado terrorista tendem a produzir uma recessão em escala total.
Desde os pesadelos inflacionários e as mudanças ideológicas de meados da década de 70, os economistas têm hesitado muito em dizer aos empresários e políticos "práticos e obstinados" que eles estavam falando coisas absurdas.
Mas, como resultado da administração bem-sucedida das economias da Grã-Bretanha e dos EUA nos últimos anos, suspeito que a economia deverá recuperar o seu prestígio.
Conheço todas as anedotas sobre economistas: se você emendasse todos os economistas, ponta com ponta, eles nunca chegariam a uma conclusão. Se você fizer qualquer pergunta a dois economistas, receberá quatro respostas. Se você cruzar um economista com um chefão da Máfia, o resultado será uma oferta incompreensível.
Mas o fato é que os economistas deram uma contribuição imensa ao bem-estar da humanidade, especialmente nos últimos 50 anos. O mundo evitou a repetição de tragédias como a Grande Depressão e a subseqüente guerra mundial, em grande parte por causa do trabalho de Keynes sobre a administração da demanda. Após 5 mil anos de servidão ao ouro e à prata, a humanidade aprendeu a administrar o papel-moeda sem perder o controle da inflação, em parte graças a Milton Friedman. Finalmente foi estabelecido um sistema global de livre comércio ordenado porque as nações de todas as partes do mundo começaram a compreender as teorias de David Ricardo sobre vantagem comparativa. Acima de tudo, a humanidade está começando a colher os frutos da criatividade econômica ilimitada, porque o mundo aprendeu a liberar o poder do motivo lucro de Adam Smith, sem sucumbir à instabilidade política e à injustiça social do sistema capitalista desenfreado descrito por Karl Marx.
Naturalmente, os economistas nem sempre acertam em relação a tudo; na verdade suas previsões numéricas são quase invariavelmente erradas. Mas a mesma coisa se pode dizer a respeito dos padrões de previsão dos meteorologistas, das tentativas dos físicos de compreender o aquecimento global; dos historiadores de estudar o Império Romano ou das prospecções de petróleo dos geólogos. O fato de a economia - como qualquer outro estudo de sistemas extremamente complexos - só poder oferecer orientação em linhas gerais não significa que o conhecimento que os economistas têm da matéria possa ser substituido pela adivinhação ou pelo instinto.
O sucesso que o Federal Reseve e o Banco da Inglaterra tiveram na proteção do mais longo período de expansão comercial da história humana - em contraste com a estagnação registrada na Europa e no Japão - representa, claramente, o melhor momento dos economistas. Mas outras experiências reforçaram, recentemente, minha convicção de que está havendo um renascimento da economia.
Minha primeira epifania foi publicada na semana passada, quando tive o prazer de ser um dos juízes da competição anual das escolas promovida pelo Banco da Inglaterra, tendo The Times como co-patrocinador. No final, as equipes de estudantes de economia de nível A, representando escolas que vão de Eton até o Blackpool Six Form College (que saiu vencedor), competiram entre si na tentativa de adivinhar qual seria a decisão sobre a taxa de juros do Banco da Inglaterra. A compreensão do assunto demonstrada por aqueles estudantes é de causar vergonha à maioria dos industriais e dos analistas da City. Eles também mostraram ter grande conhecimento do papel desempenhado pela política monetária na defesa das economias dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha dos efeitos do "naufrágio" das empresas de tecnologia e dos atentados terroristas de 11 de setembro.
Mas o renascimento da economia não está confinado à política monetária e à administração da demanda. Na conferência anual da Royal Economic Society (RES) realizada esta semana na Universidade de Warwick, economistas de todos os tipos demonstraram um reengajamento no mundo real e uma criatividade prática que pareciam esquecidos em meio às discussões ideológicas e às buscas infrutíferas de pureza matemática da década de 80.
Devo declarar um interesse. Sou membro do Conselho da RES, mas durante muitos anos fui profundamente cético em relação à economia acadêmica. Nesse ínterim, o espírito da economia acadêmica parece ter mudado.
O programa da conferência da RES falava por si mesmo. Partes dedicadas ao trabalho e educação, firmas e indústrias e mercados financeiros competiam com avaliações empíricas da política monetária, taxas de câmbio e previsões.
Em cada uma dessas sessões, os economistas trataram de questões concretas e ofereceram respostas claras, informativas e muitas vezes contrárias à intuição de determinadas pessoas.
A mobilidade social diminuiu, em vez de aumentar, na Grã-Bretanha de Margaret Thatcher da década de 80. As firmas administradoras de fundos de pensões com bom desempenho superaram, sistematicamente, o mercado de ações.
O Banco da Inglaterra superestimou, sistematicamente, os riscos inflacionários, e, em vista disso manteve as taxas de juros altas demais, por margem de diferença pequena, mas significativa. A democracia direta, na qual os eleitores expressam suas opções por meio de referendos, aumenta a qualidade dos bens públicos. A criação de programas muito ousados, com freqüência, prejudica os interesses dos consumidores. Quanto mais influenciados pelos políticos, tanto mais os regulamentadores tendem a ser lenientes em relação às empresas de utilidade pública.
Essas foram apenas algumas das conclusões apresentadas na conferência da RES, apoiadas por argumentos lógicos e pesquisas empíricas. Naturalmente, todas essas conclusões podem ser contestados, como sucede com as conclusões de qualquer outra disciplina acadêmica que trate de sistemas complexos. Mas a economia parece estar redescobrindo sua razão de ser como servidora de uma política pública sólida e instrumento prático para a compreensão do comportamento social.
Se você ainda não está convencido do seu valor prático, deve dar uma olhada no artigo intitulado "O Maior Leilão já Realizado", publicado no Economic Journal deste mês. Ken Binmore, da UCL, e Paul Klemperer, de Oxford, relatam a história dos leilões de telefones celulares da Terceira Geração (3G), que produziram ganhos inesperados no valor de 25 milhões de libras para o bolso do público - mais do que o suficiente para a reconstrução da rede ferroviária nacional. Como o documento mostra, a aplicação cuidadosa de princípios econômicos ao projeto daquele leilão foi, em grande parte, o fator responsável pelo seu sucesso.
O artigo contesta, de modo convincente, a opinião muito difundida de que os ganhos obtidos pelos contribuintes fiscais com aquele leilão resultarão em prejuízo dos consumidores. Os únicos perdedores serão os investidores no mercado de ações que foram tolos o bastante para comprar ações de telefone quando a bolha da tecnologia estava no auge - além dos analistas financeiros que incentivaram executivos de empresas a oferecer vastas somas pelos direitos sobre uma tecnologia não testada e de valor duvidoso. Os usuários de telefones provavelmente não sofrerão, pois, como todo economista sabe, os preços e os investimentos em qualquer mercado dependem da intensidade da concorrência e dos futuros retornos da nova tecnologia.
Como a recessão que jamais aconteceu, o leilão dos telefones 3G foi um triunfo da boa economia sobre os preconceitos dos empresários e financistas "práticos".
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