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A FAAP teve o privilégio de ser a única instituição de ensino a receber, para uma palestra, o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson. O evento teve lugar no dia 11 de setembro e foi promovido pelo Instituto de Estudos Internacionais e pela Faculdade de Economia da FAAP.

O embaixador Sergio Amaral, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da FAAP, fez a apresentação do palestrante que, antes de exercer sua atual função, foi um dos mais importantes assessores de Tony Blair, chegando a ocupar por duas vezes o cargo de ministro em diferentes pastas: foi, inicialmente, ministro do Comércio, e, posteriormente, ministro das Relações com a Irlanda, desempenhando papel fundamental para que as negociações com o IRA (grupo separatista irlandês) chegassem a bom termo, num processo que culminou com a assinatura de um acordo de paz que põe fim a um longo período de hostilidades e mortes.

Mandelson, que veio ao Brasil para participar da reunião do G-20 (grupo dos países em desenvolvimento) com os Estados Unidos e a União Européia, realizada no Rio de Janeiro nos dias 9 e 10 de setembro, abordou o tema "O Brasil e a União Européia nas negociações comerciais", para uma platéia constituída de alunos, professores, empresários e jornalistas.

No início de seu pronunciamento, Mandelson disse que a União Européia acredita que a integração regional é positiva para o desenvolvimento econômico e, nesse sentido, chegou até a elogiar a entrada da Venezuela no Mercosul, "ainda que isso possa tornar nossas discussões (da UE) mais complexas em um primeiro estágio". Nessa parte inicial de sua fala, ele procurou destacar as afinidades comerciais, culturais e históricas entre os dois blocos econômicos e do impacto favorável dessas afinidades para o futuro das negociações comerciais. "Um Mercosul forte será positivo para a Europa. Estou ansioso para retomar as negociações a fim de chegar a uma conclusão rápida em termos concretos".

Na seqüência, o comissário fez uma análise mais ampla e sustentou a tese de que a substituição do modelo protecionista que prevaleceu nos anos 80 pela liberalização do comércio tem sido vantajosa para as economias dos grandes países emergentes, em especial Brasil, Índia e China. Segundo ele, "Brasil, Índia e China cortaram suas tarifas ao longo da última década porque faz sentido economicamente". Na conclusão desta parte de seu depoimento, Mandelson fez um desafio: "Acredito que a economia brasileira pode confortavelmente absorver uma maior liberalização ou, em muitos casos, a consolidação da abertura já iniciada". Fechou esta parte do discurso dizendo que a Rodada Doha pede "um passo adicional" nessa direção.

Encerrando sua exposição, Mandelson afirmou ainda acreditar num desfecho favorável para as negociações da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio, iniciadas em 2001 e interrompidas em julho último, classificando como indispensável o papel para o progresso das negociações multilaterais.

Ao responder perguntas formuladas pela platéia, Mandelson examinou a polêmica questão da coexistência do multilateralismo com os acordos comerciais bilaterais, formulada pelo professor Feliciano de Sá Guimarães, do curso de Relações Internacionais da FAAP. Reconhecendo tratar-se efetivamente de um assunto bastante complexo, o comissário disse não acreditar que os acordos bilaterais sejam uma alternativa a Doha: "Enfaticamente, afirmo que esses acordos bilaterais não substituem a rodada. Nós estamos 100% comprometidos com a Rodada Doha como prioridade. Porém, um objetivo não exclui o outro. No acordo entre a União Européia e o Mercosul, nós poderemos certamente ir além do acordo entre os 149 membros da OMC. Isso deve ser uma verdade para os dois lados".

Após a palestra, Peter Mandelson e os demais membros de sua comitiva foram recepcionados pela Diretoria da FAAP que, em sua sede, ofereceu um almoço em sua homenagem, com a presença de alguns empresários, professores, diplomatas e jornalistas especializados. Num breve pronunciamento, Mandelson, primeiramente, agradeceu a excelente organização da FAAP na preparação de sua palestra, elogiou a qualidade das perguntas formuladas pelos alunos e professores e se disse encantado com as instalações, quer do campus, quer da sede de Diretoria. Afirmou que pouquíssimas instituições acadêmicas em todo o mundo oferecem instalações semelhantes, destacando a importância da convivência da arte, da cultura e da ciência.

Em seguida, repetiu sua expectativa moderadamente positiva quanto à possibilidade de ressucitamento das negociações da Rodada de Doha, paralisadas desde julho, responsabilizando os Estados Unidos pela suspensão da agenda. Voltou a falar da importância da continuidade da política liberalizante por parte do Brasil, reconheceu que a questão agrícola deverá permanecer como principal dificuldade das negociações e insistiu na necessidade de que acordos bilaterais e negociações multilaterais não sejam excludentes. "As negociações bilaterais poderão andar junto mas avançar antes das multilaterais", arrematou.