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Alunos e profissionais de RI da América Latina discutem segurança,
economia e democracia na FAAP

De 30 de outubro a 2 de novembro de 2009 foi realizado no campus principal da FAAP, em São Paulo, o XV Encuentro de Estudiantes y Graduados en Relaciones Internacionales del Conosur – XV Conosur, uma realização da Federação Nacional de Estudantes de Relações Internacionais (FENERI), com apoio da Diretoria da Faculdade de Economia da FAAP.

A atual Diretoria da FENERI é constituída de alunos do curso de Relações Internacionais (RI) da FAAP, com mandato até outubro de 2010, quando haverá eleição da nova Diretoria.

Extrapolando a expectativa da comissão organizadora, o XV Conosur teve a participação de xxx inscritos de 12 diferentes países: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, além do Brasil.

A Cerimônia de Abertura do XV Conosur teve a presença do diretor da Faculdade de Economia da FAAP, embaixador Rubens Ricupero, do vice-diretor, professor Luiz Alberto Machado, do secretário municipal de Relações Internacionais, Alfredo Cotait Neto, e da secretária-geral do XV Conosur, Juliana Baeza Burali.

Imediatamente após, ocorreu a primeira conferência magistral, com a participação dos embaixadores Rubens Ricupero e Marcos Azambuja que trataram do tema da islamização da agenda internacional, num painel que teve como mediador o diretor da editora Paz e Terra, Marcos Gasparian. O tema do painel e seus painelistas foram escolhidos em função do último número da revista Política Externa, lançada na ocasião. Nela, o embaixador Ricupero tem publicado o artigo A islamização da agenda, enquanto o embaixador Azambuja tem publicado o artigo As eleições no Irã.

Número da revista Política Externa lançada na abertura do XV Conosur.

A programação do XV Conosur teve a segurança como tema central do primeiro dia; a economia como tema central do segundo dia; e, do terceiro dia, a política. 

Dia 31 de outubro - Segurança

O primeiro painel temático, Proteción de recursos minerales, naturales y seguridad energética, contou com as exposições da engenheira do Centro Nacional de Referência em Biomassa, Alia Rached, e do professor da Faculdade de Economia da FAAP, Marcus Vinicius de Freitas. Enquanto Alia Rached fez uma apresentação mais técnica sobre a evolução da produção e do consumo de energia na América Latina, apontando alguns obstáculos e vulnerabilidades da integração regional, o professor Marcus Vinicius de Freitas procurou se ater mais às questões jurídicas, políticas e diplomáticas que podem por em risco a segurança energética da região.

O segundo painel temático, Conflictos regionales en América del Sur y la historia de la formación de la frontera brasileña teve a participação do embaixador Synesio Sampaio Goes Filho e do tenente-coronel da Aeronáutica, Claudio Passos Calaza.

O embaixador Synesio Sampaio Goes Filho, que é professor do curso de RI da FAAP, baseou sua exposição no livro Navegantes, bandeirantes, diplomatas: um ensaio sobre a formação das fronteiras do Brasil (São Paulo: Editora Martins Fontes), de sua autoria. Depois de examinar as contribuições dos descobridores, dos bandeirantes e dos diplomatas, em diferentes fases, para a consolidação territorial do Brasil, o embaixador encerrou sua exposição afirmando: “Enfim, o Brasil tem muitos problemas, destacando a pobreza, mas na parte de formação territorial, a história brasileira é muito positiva. O Brasil, ao contrário dos outros integrantes dos BRICs, não tem tido recentemente conflito de fronteira com nenhum vizinho, o que é sensacional. A China e a Índia têm, assim como a Rússia. O Brasil teve a sorte de, nos momentos decisivos de sua história encontrar homens como Alexandre de Gusmão, Duarte Ribeiro e o Barão do Rio Branco, que souberam conduzir os interesses da nação de maneira exemplar”.

Já o tenente-coronel Claudio Calaza, a partir da afirmação de que “a história da humanidade é uma história de guerras, em que o Homem construiu sua sociedade pensando em destruir a do outro”, fez uma análise dos conflitos passados e presentes da América do Sul, concluindo que não há um nível crescente e generalizado de investimentos em equipamentos militares no continente. São casos pontuais e expressivos: Chile e Venezuela. Na Colômbia há conflito interno e ajuda americana; na Argentina e Bolívia, níveis mínimos e decrescentes; na Argentina, forças armadas muito obsoletas (o que é um sério problema, pois já foi uma potência).

A atividade seguinte consistiu numa mesa de discussão que teve por tema Em búsqueda de la estabilidad em período de turbulência, com a participação dos professores Rafael Villa, da Universidade de São Paulo, e Gunther Rudzit, coordenador do curso de RI da FAAP, sob a mediação de Azahara Martín Ortega, apresentadora da Terra TV News América Latina. Mereceram atenção especial nessa sessão, questões relevantes para a manutenção da segurança e da estabilidade política da América Latina, entre as quais o problema vivido por Honduras, a situação do Haiti, e as crises provocadas pelo presidente Hugo Chávez, com destaque para a tensão entre Colômbia e Venezuela.

Encerrando a programação do dia, o ex-presidente da Colômbia e ex-secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Cesar Gaviria, brindou a plateia com uma excelente palestra em que abordou, inicialmente, as dificuldades enfrentadas no período em que presidiu a Colômbia, para, posteriormente, fazer reflexões gerais em relação à economia, à democracia e à segurança, destacando a posição do Brasil em relação a tais temas. O primeiro tópico abordado foi justamente a crise atual. Afirmou que a América Latina é a região que vai sair melhor da crise, sendo que Brasil, juntamente com Chile, Colômbia e Peru são os países que estão apresentando melhor desempenho. Por outro lado, países como Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina encontram-se em uma situação desfavorável. E as razões pelas quais tais países parecem não superar seus problemas, encontram-se no fato de que escolheram não seguir os fundamentos da boa economia, com uma boa política fiscal e uma política cambial flexível. No caso do Brasil, a liberalização foi impulsionada por Fernando Henrique Cardoso e teve sua continuidade no governo Lula. No caso do Chile, observa-se a prática de uma boa política econômica desde os tempos de  Pinochet, enquanto o Peru possui uma boa política econômica desde Fujimori.

A ineficiência do Estado na América Latina foi o aspecto seguinte destacado por Cesar Gaviria, deixando consequências negativas na educação, principalmente em nível primário e secundário, na infraestrutura e na saúde. Tais problemas surgem muito mais em razão da má gestão do que da falta de recursos, e a ausência de reformas das políticas públicas só serve para agravar a situação.

No plano político, Gaviria elogiou o fortalecimento das instituições democráticas verificado no Brasil e em diversos outros países da América Latina após o final da Guerra Fria, mas mostrou grande preocupação com a situação da Venezuela, onde o setor privado se vê ameaçado pelas freqüentes interferências do governo do presidente Chávez e a economia se torna cada vez mais dependente do petróleo, deixando muitas interrogações sobre as perspectivas de longo prazo.

Por fim, relativamente à questão da segurança, Gaviria reconheceu a importância regional do Brasil, independentemente da obtenção de uma vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Falou dos avanços na luta contra o narcotráfico, motivo da polêmica envolvendo a presença de bases militares na Colômbia.

Gaviria concluiu sua fala dizendo que para que o Brasil concretize sua liderança na região precisa definir mais claramente seus objetivos e agir de forma mais explícita nas situações que exigirem sua intervenção.

Dia 1º de novembro – Economia

A programação do segundo dia do XV Conosur começou com a palestra da ex-ministra Marina Silva, moderada pelo embaixador Rubens Ricupero.

Depois de fazer a apresentação da palestrante e de agradecer a aceitação do convite, o embaixador Rubens Ricupero lembrou que a temática do meio ambiente será um tema central nos tempos vindouros e que a eventual confirmação da candidatura de Marina Silva à presidência da República fará com que todos os candidatos tenham que ter grande preocupação com o tema.

Marina Silva começou seu pronunciamento ressaltando as oportunidades de investimentos de uma economia verde e, a seguir, falou da situação delicada em que nos encontramos quando se trata do ponto de vista do equilíbrio do planeta, com a real possibilidade da  inviabilização da vida terrestre.

Para que isso seja evitado, é preciso que esforços sejam concretizados para que ocorra uma redução da emissão dos níveis de CO². Para tanto, é preciso que países com emissões históricas altas assumam metas ousadas juntamente com os países emergentes, como o Brasil, Índia e China.

Porém, como fazer isso de maneira justa e equitativa? Ao longo dos anos os países ricos exploraram à vontade e se desenvolveram. Já os países em desenvolvimento têm níveis de pobreza inaceitáveis, de modo que não podem ser comparados com os EUA. Segundo a senadora, tal esforço somente dará certo com base em um alinhamento ético de todos os países e através de alianças intergeracionais, com aqueles que ainda não nasceram. Tal aliança vai depender que debelemos interesses letais para a vida na terra e criemos outras oportunidades. Para fazermos isso precisamos de uma visão de mundo que nos paute em valores, de uma ética, não rigorosa, estagnada, é uma ética dos valores, que se transforma na história, mas que é ontologicamente preservada: justiça, amor, respeito ao outro.

Concluindo a discussão, o embaixador Ricupero afirmou que essa nova economia, de baixa intensidade de carbono, tem uma racionalidade econômica própria. É ela que vai permitir no futuro que não se interrompa o crescimento da economia, mas que se torne possível conciliar o crescimento econômico com a preservação do planeta. Observou que  já hoje as tecnologias disponíveis oferecem grandes oportunidades de trabalho a quem inicia a vida profissional e reforçou a questão ética levantada por Marina Silva sobre a igualdade e a equidade, lembrando os chamados least developed countries, que serão os primeiros afetados pelo aumento do nível dos oceanos.

Encerrada a palestra de Marina Silva, foram realizados dois painéis simultâneos. O primeiro, La dimensión humana de la crisis: impactos en la integración regional y subregional, reuniu o diretor da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL) na Argentina, Bernardo Kosacoff, e o cônsul geral do México em São Paulo, embaixador Salvador Arriola, sob a mediação do coordenador do curso de Economia da FAAP, professor José Maria Rodriguez Ramos.

Kosacoff fez uma análise dos efeitos da crise sobre  América Latina como um todo, mas se concentrou mais na situação da Argentina e do Brasil, bem como sobre as possibilidades e os obstáculos a uma maior integração econômica dos dois países. Nesse particular, esclareceu que há setores na Argentina em que as diferenças de produtividade fazem com que se impeça a integração, criando barreiras. Argentina e Brasil partilham da mesma realidade, de histórias positivas. Complementação e especialização têm que ser o foco da parceria. Elas gerarão economias de escala e acesso a mercados. Estar juntos para produzir e distribuir os alimentos do mundo é viável. No setor petroleiro também, além dos serviços e da área financeira. Concluiu afirmando que a Argentina não quer ser em relação ao Brasil o mesmo que é o México em relação aos Estados Unidos. Nesse sentido, só o desenvolvimento inclusivo gerará riqueza e distribuição de renda.

Em seguida, Salvador Arriola também apresentou seu ponto de vista sobre os efeitos da crise na América Latina, lembrando que o PIB da região caiu quase 2%, agravando o desemprego e provocando o aumento da pobreza. Ao focalizar a questão da integração e de suas dificuldades, Arriola afirmou que não há razões para muito otimismo, pois até agora as experiências do Mercosul e da Comunidade Andina evidenciaram poucos avanços e muitas discordâncias. Em síntese, concluiu, não cumprimos nem com os compromissos comerciais que traçamos há mais de 50 anos. Colocamos os esforços políticos e técnicos no comércio, mas deixamos outras coisas importantes da integração regional de lado.

O segundo painel temático, Formación de bloques económicos en América Latina, contou com a participação de Kellen Fraga, assessora econômica especial da presidência da Agência Brasileira de Promoção de exportações e Investimentos (APEX), e do ex-ministro de Comércio Exterior da Bolívia, Luis Fernando Peredo Rojas, tendo por mediador o professor Otto Nogami, da Faculdade de Economia da FAAP.

Kellen Fraga iniciou sua exposição explicando as atividades da APEX e afirmou que uma das maiores preocupações da agência hoje diz respeito à integração da América Latina. Apresentou, a seguir, diversos dados referentes aos fluxos mundiais e regionais de investimento estrangeiro direto, chamando a atenção para o impacto que a crise financeira internacional teve sobre os mesmos. Prosseguiu alertando para a participação crescente dos países emergentes no fluxo mundial de comércio, destacando, a esse respeito: 1) o elevado percentual da participação da China; e 2) a necessidade de diversificação das exportações por parte dos países latino-americanos, ainda muito dependentes de commodities de valor agregado relativamente baixo.

Antes de passar a palavra a Luis Fernando Rojas, o professor Otto Nogami fez as seguintes considerações: 1) antes de tudo devemos lembrar que o que leva os países a formarem blocos econômicos é o fato de não serem auto-suficientes, razão pela qual necessitam do comércio internacional e, mais recentemente, de se integrarem em blocos regionais; 2) quando falamos de integração comercial na América Latina, devemos levar em conta que as relações comerciais intra-regionais são, historicamente, muito reduzidas; 3) as tensões recentes envolvendo a entrada ou não da Venezuela no Mercosul e as questões comerciais entre Brasil e Argentina indicam que os obstáculos encontram-se ainda longe de uma solução satisfatória.

O ex-ministro de Comércio Exterior da Bolívia, Luis Fernando Peredo Rojas, por sua vez, alertou para a importância de entender o nível de pobreza da América Latina e o número de consumidores existentes: “Mais da metade da população da América Latina está abaixo dos níveis econômicos e sociais em que deveria estar. Não podemos consumir tanto, pois estamos ainda em várias regiões numa verdadeira economia de subsistência. O comércio e o consumo da América Latina são muito baixos. Exportamos basicamente matérias- primas e importamos produtos com maior valor agregado dos paises desenvolvidos. Assim, é necessário mudar esse quadro, a fim de que passemos a exportar mais produtos com maior valor agregado. [...] Para se chegar à integração é preciso dar passos mais ousados e complexos, acabar com a pobreza e promover o desenvolvimento”.

Encerrando a programação do dia, houve uma discussão sobre a relação do Brasil com seus vizinhos, com a presença dos embaixadores José Botafogo Gonçalves, presidente do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), e Sergio Amaral, diretor do Centro de Estudos Americanos da FAAP, mediados pelo diretor da Faculdade de Economia da FAAP, Rubens Ricupero.

O embaixador Botafogo ressaltou a alternância de iniciativas bem sucedidas com outras que não chegaram a bom termo. Lamentou que por circunstâncias diversas na maior parte do tempo o Brasil tenha permanecido isolado comercialmente em relação aos países da América do Sul, separado pela língua, pela cultura e pela geografia: em relação aos vizinhos mais ao sul, pela Cordilheira dos Andes; e aos do norte pela floresta amazônica. O Mercosul, nos primeiros anos, representou uma esperança de quebra desse quadro, mas os acontecimentos mais recentes não permitem grandes expectativas, embora eu não tenha dúvida de que a curto prazo “o teatro de operações da diplomacia brasileira vai ser a América do Sul; a relação com os EUA já está estabelecida, mas não é previsível que haja mudanças importantes nesse sentido ou mesmo com a Europa. As relações não são estáticas, mas o grande foco está definido. Com a Ásia há um ponto de interrogação, esperando ver que papel terão Índia e China”.

O embaixador Sergio Amaral, por seu turno, preferiu chamar a atenção para a mudança verificada nas relações internacionais com o fim da Guerra Fria, alertando para o fato de que os principais atores não estavam preparados para enfrentar a nova realidade. Ressaltou, diante disso, a relevância do soft power de Joseph Nye: “Tínhamos aprendido a compreender a realidade do mundo com a Guerra Fria, mas isso não se aplicava mais. Hoje em dia não há apenas dois atores importantes: o soldado ou o diplomata. Hoje em dia há mil e um atores cada vez mais influentes. A diplomacia não é apenas questão de estados, mas está ligada crescentemente à opinião pública. Esse aspecto, aliás, foi bem compreendido pela presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que surpreendeu a todos quando fez uma viagem à Europa antes de tomar posse e, ao invés de passar horas em reuniões formais, despendeu boa parte do tempo em palestras públicas. Para ele, que conhece muito bem como lidar com a opinião pública, era mais importante falar com o público do que falar com os presidentes”.

Sergio Amaral encerrou sua exposição apontando dois aspectos que merecem reflexão:

Democracia: se todos dizem que a democracia é importante, por que não adotamos a democracia nas relações internacionais se esse é o melhor regime? Essa é a questão fundamental desde o fim da Guerra Fria. Esse é um dos temas mais importantes do momento e envolve o alargamento do processo decisório e a questão da governança. A crise mostrou que não é possível acelerar os fluxos financeiros, um aumento do comércio com as regras que são obsoletas, velhas, que remontam aos anos 1940. A escolha do G-20 para decidir isso representa uma relativa democratização, um alargamento do processo de decisão. Nessa linha, o Conselho de Segurança também precisa ser alargado para se transformar num mecanismo mais democrático.

Percepção dos países quanto à forma de organização da sociedade do ponto de vista da economia e do papel do Estado: embora seja um tema bastante controverso, a derrota da URSS na Guerra Fria representou um forte abalo na ideia da planificação da economia e da construção de um Estado comunista. Falou-se muito, de maneira precipitada, que era o fim da história. A recente crise financeira internacional serviu para relativizar muitas coisas, entre as quais a noção da supremacia do livre mercado.

Dia 2 de novembro – Democracia

O terceiro e último dia do Conosur foi aberto, na parte da manhã, com o grupo de discussão Las relaciones civiles y militares: los riesgos de intervención, que teve como moderador o professor Marcus Vinicius de Freitas.  Conduzindo o debate de forma dinâmica, interativa e bem-humorada, e tendo em vista a realidade que se vive na América Latina, com ênfase na questão da democracia, no fenômeno Chávez e no caso de Zelaya, o moderador decidiu propor cinco questões para nortear o debate:

  1. A democracia está consolidada em seu país? Qual é o conceito?
  2. Qual o rol de percepção das Forças Armadas?
  3. Temos uma percepção de corrida armamentista na região?
  4. Qual o custo de Chávez na região?
  5. O que representa o caso Zelaya?

A escolha das questões pelo moderador mostrou-se bastante acertada, uma vez que a participação foi intensa e os debates acirrados, sendo interrompidos apenas pela necessidade de um intervalo antes do início da programação da tarde.

A programação da parte da tarde começou com dois paineis temáticos: o primeiro, Democracia en América Latina, actualidades y perspectivas, teve a exposição do embaixador João Clemente Baena Soares e os comentários do embaixador Rubens Ricupero; o segundo, Uso político de la inclusión social en América Latina y surgimiento de nuevos lideres, contou com as exposições do ex-ministro de Comércio Exterior da Bolívia, Luis Fernando Peredo Rojas, e do presidente da xxxx (CAS&A), Carlos Salazar Vargas, tendo por mediador o professor Oswaldo Martins Estanislau do Amaral, do curso de Relações Internacionais da FAAP.

Num tom agradável e bem-humorado, o embaixador Baena Soares iniciou seu discurso sobre a democracia dizendo que diferentemente de certos assuntos que são atuais por curtas frações de tempo, este é atual em toda a história. Ademais, considera que vivemos um momento favorável para a democracia em termos de andamento político e de direitos humanos. A questão da democracia, contudo, traz, segundo ele, novidades e desafios, que devem ser encarados de maneira inovadora. Neste quadro democrático, portanto, há algumas ameaças que durante a apresentação ganham destaque, entre os quais o instituto da reeleição, que, no entender de Baena Soares, não deve ser mantida, pois é em torno dela que têm surgido os focos de maior tensão para a manutenção da democracia na América do Sul, como se observa na Venezuela, no Brasil e, mais recentemente, na Colômbia.

Na sequência, Baena Soares examinou outras situações delicadas existentes na América Latina, destacando a crise de Honduras provocada pela deposição do presidente Zelaya, a situação de Cuba e o chamado bolivarianismo protagonizado pelos presidentes Chávez, da Venezuela, Morales, da Bolívia, e Correia, do Equador. Ponderando, de um lado, que a consolidação da democracia repousa num conjunto de valores éticos que despertam esperança e satisfação de necessidades básicas e, de outro, que a corrupção e a pobreza causam desencanto, frustração e põem em risco ao avanços conquistados na região, Baena Soares deixou claro que os textos jurídicos, os arranjos políticos e os organismos internacionais pouco vão adiantar se a ordem democrática não receber o apoio do povo da América Latina. É o povo que cria as condições, a base social da democracia. Isso é uma questão ainda não resolvida nos países latino-americanos. Nesse sentido, dois pilares são fundamentais: respeito e tolerância. Sem isso não há democracia possível e a reação internacional, muito distinta de anos atrás, cada vez mais mostra que o esforço coletivo para proteção tem que ser canalizado para os organismos internacionais. Baena Soares concluiu afirmando que a questão da democracia é central nos nossos países. Não há um roteiro de democracia a ser imposto. Ela segue um movimento pendular. Estamos no pólo democrático agora e temos que trabalhar para manter o pêndulo onde está.

Com a palavra, o embaixador Rubens Ricupero iniciou suas considerações fazendo menção à famosa afirmação de Winston Churchill, segundo a qual “a democracia é o pior de todos os sistemas, com exceção de todos os que foram tentados depois”. Portanto, a democracia está longe de configurar-se como um sistema perfeito, mas frente às demais alternativas, permanece sendo a melhor. Depois de fazer uma série de considerações sobre o provável impacto da crise na região, lembrando que em situações como essa há sempre necessidade de um período para que a situação volte a ser como era antes do início da crise, bem como de reafirmar a necessidade urgente de avançarmos na luta contra a pobreza e a desigualdade, Ricupero concluiu sua fala corroborando as colocações do embaixador Baena Soares e alertando para o fato de que mais do que o predomínio do desejo da maioria, o que faz da democracia um sistema superior a qualquer outro é o respeito ao direito das minorias expressarem seus desejos e suas ideias, “única forma de garantir a possibilidade de alternância no poder, talvez o maior esteio da democracia”.

O último painel temático do XV Conosur começou com a exposição do ex-ministro de comércio exterior da Bolívia, Luis Fernando Peredo Rojas. De acordo com sua concepção, está claro que para vislumbrar novos horizontes a região deve organizar-se no sentido de promover uma resignificação do que é o Estado latino-americano. Em outras palavras, está-se falando da refundação dos Estados. Assim, de acordo com o palestrante, não é possível entender a realidade atual do continente, inclusive os polêmicos casos de Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, se não nos ativermos ao fato de que está surgindo um modelo novo de Estado, um novo modelo de governo, que vai repercutir na sociedade civil, no setor privado e, evidentemente, na sociedade política. Deste modo, deem o nome que se der, podendo-se até mesmo falar em “novo socialismo”, o que interessa é que estamos falando de uma proposta completamente inovadora. Apenas através de uma profunda analise sobre a natureza do Estado é que será possível compreender as novas lideranças da região. Nesse sentido, porém, Peredo reitera que embora a teoria social possua diversas vertentes, nenhuma delas é capaz de dar conta de explicar o que é o Estado latino-americano. Isso porque, segundo ele, a região compreende algumas peculiaridades, expressas especialmente através de três demandas principais: 1) de autonomia; 2) de inclusão (que é o pretexto pelo qual os novos governos com discurso refundacionista nascem); e 3) da interculturalidade. Assim, dando prosseguimento, Peredo considera que se vive um período de radicalização de imaginários: por um lado difundiu-se a noção de que “não há o que fazer”, situação em que, entre outros fatores o Estado é tido como fonte do problema: identidades, compromissos e tradições preexistentes, hegemonia nacional, essencialismo étnico e social estão relacionados. Em contrapartida, simultaneamente verifica-se a máxima: “tudo precisa ser feito”. Portanto, o que inevitavelmente se constata é que existe um imenso campo de ação entre estas duas esferas mencionadas, e é neste espaço que existem diversas possibilidades. O Estado latino-americano está em um processo contínuo de construção. “Levamos anos e continuaremos trabalhando nisso. Construir um Estado que acompanhe o ritmo da inclusão social é não apenas fundamental, mas um desafio”.

Peredo finalizou sua exposição lembrando de uma afirmação de Mark Moore, segundo a qual na América Latina tem-se o péssimo costume de fazer política pública para tudo e para nada. As políticas só duram enquanto duram os governos. “Para que elas sejam perenes, sustentáveis”, conclui, “devem contemplar ao menos três condições: a dimensão substantiva, a dimensão operativa e a dimensão política”.

Aproveitando o cenário traçado até então, Carlos Salazar Vargas iniciou suas considerações evidenciando a natureza transformadora do mundo atual, especialmente em termos políticos. Para ilustrar essa posição, alertou para a emergência de lideranças tradicionalmente consideradas minorias na América: um sindicalista (Brasil), um negro (EUA), um indígena (Bolívia), um bispo (Paraguai) e um ex-guerrilheiro (Uruguai), por exemplo. Acompanhando a emergência dessas novas formas de liderança, devem necessariamente vinculadas propostas de políticas públicas pautadas pela inclusão, pela geração de oportunidades e pelo viés empreendedor. Nesse sentido ele questionou, ao longo de toda a sua exposição, sobre onde estaria a proposta latino-americana nesse âmbito.

Em seguida, o palestrante dedicou-se a realizar alguns esclarecimentos conceituais, especialmente atrelando a política ao ato de promover políticas públicas e de realizar atividades em prol de terceiros, entendidas estas como uma forma pela qual o Estado se comunica com sua respectiva sociedade. Neste sentido, a contrapartida ideal, de acordo com essa ótica, seria de que uma sociedade caminha positivamente a partir do momento em que os povos passam a votar menos por pessoas e mais por programas.

Para finalizar suas considerações, Salazar difundiu um conceito expresso em um de seus livros recém publicados, o conceito daquilo que denomina “politing”, que, em termos práticos, representa a interconectividade entre o marketing e a política: ele seria um caminho interessante rumo a efetividade na implementação de políticas públicas, tanto do ponto de vista da eficiência quanto da eficácia.

A palestra de encerramento do XV Conosur foi proferida por Abraham Lowenthal, professor de Relações Internacionais da University of Southern Califórnia e considerado, nos Estados Unidos, um dos maiores especialistas sobre questões relativas à América Latina.

Lowenthal lembrou, inicialmente, que sua palestra no XV Conosur ocorria um dia antes do aniversário de um ano da eleição do presidente Barack Obama, sendo, portanto, “um dia significativo para debater o relacionamento entre os Estados Unidos e a América Latina”.

"O certo é que há um ano, poucas pessoas estavam dispostas a acreditar que o governo Obama iria prestar muita atenção às relações com os governos da América do Sul e do Caribe", frente aos assustadores desafios que o esperavam, como a mais grave crise financeira desde os anos 1930, além dos problemas herdados do governo anterior, como duas guerras, terrorismo, a reforma do sistema de saúde, e difíceis situações em política externa que envolviam Coréia do Norte, Oriente Médio, e outros temas. "Mas nos primeiros meses de seu governo, acredito que nós nos surpreendemos", disse Lowenthal. "Eu fiquei surpreso, devo confessar. Logo de início o presidente participou da Cúpula das Américas em Trinidad Tobago, em abril, dialogando com os representantes de 34 países da região, e, em seguida, visitou o México”, lembrou Lowenthal.

Segundo ele, os preparativos para tais eventos deixaram entrever qual era a nova abordagem do governo americano em relação à América Latina e Caribe. Embora a participação em reuniões como a Cúpula ocorram por constarem da agenda do presidente, Lowenthal duvida que essa seja a única explicação. A percepção que ficou foi a da importância dada à região, da disposição dos novos integrantes do governo em relação à política para o hemisfério. Apesar dos grandes problemas existentes entre os Estados Unidos e o México, inclusive na política interna, como a questão de fronteiras, migração, combate às drogas, "que não serão ignorados pelo governo", há questões mais amplas, referentes à política externa em geral para a América do Sul e Caribe, que foram levadas em consideração pelo novo governo, disse ele.

Lowenthal vê com grande otimismo a ampliação desse relacionamento. Mesmo no que se refere à ameaça de protecionismo, uma vez que no front interno o governo Obama enfrenta fortes pressões de grupos interessados em preservar empregos. Mesmo que o país tenha saído tecnicamente da recessão, ao registrar crescimento de 3,5% no PIB, entre julho e setembro, os Estados Unidos não conseguem controlar o aumento do desemprego, que se aproxima dos 10%.

"Sou otimista de que a recuperação vai prosseguir", disse Lowenthal, apesar de admitir que não se pode excluir a ameaça do protecionismo, caso isso não ocorra. Sobre Obama, disse acreditar que seu governo tem mais espaço de manobra que seus antecessores no estabelecimento de uma política externa que inclua a América Latina e o Caribe, embora muito dependa da recuperação da economia americana. Mas temos muitos interesses em comum: "energia, segurança, aquecimento global, comércio”. A nova administração, segundo Lowenthal, tem interesse em buscar um relacionamento próximo com os países da região, em particular com o Brasil, pois "partilhamos metas".
Concluindo, Lowenthal afirmou que, em sua opinião, há uma nova realidade, e o governo percebeu isso: os países da região não mais se voltam para os Estados Unidos, como anteriormente, em busca de uma liderança, mas sim em busca de maior cooperação.

Juliana Baeza, secretária-geral do XV Conosur, sem esconder sua alegria pelo sucesso do evento, declarou: “A FAAP colocou o Conosur no mapa da América Latina. Este foi o Conosur mais democrático da história, pois nas edições anteriores os participantes se concentravam apenas entre Brasil, Argentina e Uruguai”.

Fotos

Juliana Baeza, secretária-geral do XV Conosur, abrindo oficialmente o evento.

 

Representando o prefeito Gilberto Kassab, o secretário de Relações Internacionais da Cidade de São Paulo, Alfredo Cotait Neto, dá as boas vindas aos participantes estrangeiros presentes ao encontro.

 

Conferência magna inaugural do XV Conosur, com a presença dos embaixadores Rubens Ricupero e Marcos Azambuja, e a mediação de Marcos Gasparian, representando a revista Política Externa.

 

Marcus Vinicius de Freitas, professor do curso de RI da FAAP, engenheira Alia Rached, do Centro Nacional de Referência em Biomassa, e Luiz Alberto Machado, vice-diretor da Faculdade de Economia, ao final do painel Protección de recursos minerales, naturales y seguridad energética.

 

Flagrante da exposição do embaixador Synésio Sampaio Goes Filho, no painel Conflictos regionales en América del Sur y la historia de la formación de la frontera. Ao centro, Gunther Rudzit, coordenador do curso de RI da FAAP, e à esquerda, Claudio Passos Calaza, tenente coronal da Aeronáutica.

 

 
O ex-presidente da Colômbia e ex-secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Cesar Gaviria, brindou a plateia com uma excelente palestra.
 
A secretária-geral do XV Conosur, Juliana Baeza, entrega uma corbeille ao presidente Cesar Gaviria após sua brilhante palestra.

 

Embaixador Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia, Juliana Baeza, secretária-geral do XV Conosur e senadora Marina Silva, momentos antes de sua conferência.

 

Flagrante da conferência da senadora Marina Silva sobre a questão ambiental e o aquecimento climático.

 

Depois de acompanhar atentamente, o público presente aplaudiu calorosamente a senadora Marina Silva.

 

Bernardo Kosacoff, diretor do escritório argentino da Cepal, José Maria Rodriguez Ramos, coordenador do curso de Economia da FAAP, e embaixador Salvador Arriola, cônsul geral do México em São Paulo no painel La dimensión humana de la crisis: impactos de la integración regional y subregional.

 

Painel Uso político de la inclusión social de América Latina y surgimiento de nuevos líderes, com a participação do ex-ministro de Comércio Exterior da Bolívia, Luis Fernando Peredo Rojas (à direita) e do consultor Carlos Salazar Vargas (à esquerda), com a mediação do professor Oswaldo Martins Estanislau do Amaral (ao centro).

 

Embaixador José Botafogo Gonçalves, na conferência magna sobre integração regional, ladeado por seus colegas Rubens Ricupero e Sergio Amaral.

 

Exposição do também ex-secretário-geral da OEA, embaixador João Clemente Baena Soares, sobre Democracia en América Latina, actualidades y perspectivas, tendo a seu lado o vice-diretor da Faculdade de Economia, professor Luiz Alberto Machado.

 

Abraham Lowenthal, professor de Relações Internacionais da University of Southern California , na conferência de encerramento do XV Conosur.

 

Os grandes responsáveis pelo sucesso do XV Conosur: Raphael Gheneim de Camargo, Isabel Roth, Amanda Pina, Juliana Baeza, Uolli Longo Briotto, Gabriela Rodrigues Rua e José Antonio Valdes, mais conhecido como Pepe.

 

Delegação da Universidad Americana de Assunção, no Paraguai, escolhida para sediar o XVI Conosur, posa orgulhosamente para foto com o vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP, Luiz Alberto Machado. 

 

O staff do XV Conosur