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Conversa com Enrique Iglesias
Iglesias e a América Latina

No dia 2 de maio, a FAAP teve a satisfação de receber Enrique Iglesias para uma “conversa” – como foi anunciado o evento – com nossos alunos, professores e alguns convidados especiais.

Iglesias é um economista uruguaio que foi ministro das Relações Exteriores de seu país, secretário-executivo da CEPAL – a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, das Nações Unidas (ONU), que tem sede em Santiago do Chile –,   e presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington.  Hoje comanda a Secretaria Geral Ibero-Americana, em Madrid. Mesmo assim, é pouco conhecido das gerações mais jovens de economistas brasileiros. Aliás, entre os jovens em geral, popular mesmo, como ele brinca, é outro Enrique Iglesias, o cantor espanhol que é filho de Julio Iglesias, também de grande e próprio prestígio.

De acordo com o professor Roberto Macedo, editor da Revista de Economia & Relações Internacionais            publicada pela Faculdade de Economia, “foi uma boa conversa”.

Em seu artigo publicado em O Estado de S. Paulo no dia 5 de maio, Macedo afirmou que “com sua enorme experiência, o Iglesias da conversa foi e é observador privilegiado da América Latina. É sempre bom ouvir alguém com essa perspectiva regional, muitas vezes ignorada no Brasil”.
 
Iglesias começou sua fala abordando a economia internacional, marcada por incertezas e riscos acentuados, e nos países desenvolvidos por um crescimento incapaz de expandir o emprego. Na América Latina, o impulso dado pela demanda externa de commodities, com algum aprimoramento da gestão pública e boa saúde dos bancos, trouxe desde meados da década passada um maior crescimento, com progresso também no combate à pobreza.
 
Segundo Macedo, “foi confortante ouvir a menção a esses e outros fatores de alcance geral, sem o ‘nunca antes neste país’ e tampouco na América Latina. E não se falou de Lula nem de outros políticos. Mas, lembrei-me dele quando Iglesias disse que por força desses fatores o crescimento do PIB em 2010 foi muito forte em vários países da América Latina. Segundo a CEPAL, de 9,7% no Paraguai, 9% no Uruguai, 8,8% Peru e 8,4% na Argentina. O Brasil ficou em 7,5%, com Lula dizendo que tudo veio dele e muita gente acreditando nisso”.

Dentre os fatores positivos que contribuíram para o bom desempenho da região, Iglesias ressaltou também a predominância de regimes democráticos, o maior respeito pelos direitos humanos, uma sociedade civil que se manifesta mais e a estabilidade de preços valorizada politicamente. Também se aceita uma abertura maior da economia, procura-se aprimorar a educação, e se fala mais de inovação, a qual é praticada sobretudo na biotecnologia.

Contudo, Iglesias apontou que a América Latina de maior sucesso é a “do Panamá para baixo”, com relações comerciais mais voltadas para o Pacífico, em particular a China. Do “Panamá para cima”, os ventos são frios, sobretudo pelas dificuldades dos Estados Unidos, muito mais influentes nessa sub-região. A primeira é a que também atrai mais investimentos estrangeiros.

Quanto a estes, apontou que quando houve a última onda de privatização no Brasil, Portugal e Espanha se destacaram como investidores, enquanto Reino Unido, Alemanha e França, ou não vieram ou até saíram. Agora, ele nota um renovado interesse destes últimos em ampliar o espaço que perderam.

Porém, mesmo “do Panamá para baixo” há muitos problemas a superar, como a valorização de moedas, a inflação e bolhas em alguns mercados. Iglesias insistiu muito num foco na produtividade, que na região como um todo é de apenas 40% da observada nos Estados Unidos. Para ampliá-la é preciso aprimorar tecnologias, buscar inovações e cuidar da infraestrutura.  Na área social, como na educação, avanços precisam ser muito fortes, pois a posição internacional da América Latina ainda é muito ruim. Demonstrou-se também muito preocupado com a insegurança nas ruas, hoje numa situação que coloca a região como a pior do mundo.

Dando sequência à “conversa”, Iglesias sugeriu um renovado empenho na ampliação dos mercados regionais e na integração, a qual deve ser considerada uma defesa diante das incertezas do cenário externo, e não apenas uma forma de ampliar mercados, como tradicionalmente. Revelou preocupação também com os ajustes econômicos ainda incompletos nos países desenvolvidos e na China. E, também, com a questão ética, cujo mau status requer uma redefinição de valores focada num futuro melhor.

Foram debatedores os embaixadores Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da FAAP, e Sérgio Amaral, diretor do Centro de Estudos Americanos, da mesma instituição. Ambos colocaram em dúvida a integração como defesa, pois tem como premissa a industrialização, já que os serviços e a produção de commodities não são propensos à integração. Ricupero também apontou outra dificuldade, a de que a América Latina hoje está segmentada por blocos econômicos e também por países que fizeram acordos bilaterais de comércio com os ricos.

Sergio Amaral, por sua vez, sublinhou a possibilidade até de retrocesso da industrialização no Brasil, em razão do câmbio supervalorizado, juros e carga tributária elevados e infraestrutura inadequada.
           
Iglesias reconheceu as dificuldades de integrar via industrialização, acrescentando que os maiores países da América Latina têm estrutura produtiva similar, e há também Estados fortes preocupados em preservar mercados.  Por isso mesmo, recomendou uma integração “não imitativa do passado”, com avanços na parte física, argumentando que uma estrada nova entre países faz muito mais pela integração que muitas conferências de especialistas.  E que ela também poderia avançar em alguns subsetores industriais, nos serviços, inclusive na educação.

A percepção deixada pela “conversa” foi a de que voltou à cena o dilema tão enfatizado no passado pela CEPAL, de buscar a industrialização sustentada pela integração ou voltar a sofrer como produtor de recursos naturais, pois foram apontados riscos de uma dependência muito grande deles e da demanda chinesa. Esse dilema agora vem com novas roupagens, como essa da integração não imitativa.
Roberto Macedo concluiu seu artigo afirmando que “não há uma resposta, e, nesse sentido, é bom que se continue o debate, mas, como nessa conversa, sobre os fundamentos econômicos, e bem menos sobre personalidades políticas que os ignoram. Isto, ao lado de realçarem sucessos como exclusivamente seus, e debitarem fracassos só a adversários”.  

Encerrada a “conversa”, Enrique Iglesias foi homenageado com um almoço na sede da Diretoria da Fundação Armando Alvares Penteado, ao qual estiveram presentes os integrantes da Diretoria Executiva e a presidente do Conselho de Mantenedores da FAAP, Celita Procópio de Carvalho, o professor Abraham Lowenthal, do Pacific Council on International Policy, além do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, amigo de longa data do economista uruguaio.

 


Foto 1 – Embaixador Sergio Amaral, Enrique Iglesias, Fernão Bracher, embaixador Rubens Ricupero
e Roberto Macedo, momentos antes do início do evento.

 


Foto 2 – Embaixador Sergio Amaral, diretor do Centro
de Estudos Americanos da FAAP, apresentando Enrique Iglesias.



Foto 3 – Enrique Iglesias.



Foto 4 – Embaixadores Rubens Ricupero (à esquerda) e Sergio Amaral (à direita),
fazendo anotações a partir das colocações de Enrique Iglesias.



Foto 5 – Alunos e professores da FAAP, além de alguns convidados especiais,
acompanharam atentamente a exposição de Enrique Iglesias.



Foto 6 – Enrique Iglesias cumprimenta o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, na chegada à Diretoria da FAAP.



Foto 7 – Antonio Bias Bueno Guillon, diretor-presidente da FAAP, entregando a
Enrique Iglesias o livro institucional e uma recordação da Fundaçã



Foto 8 – Na Diretoria da FAAP (da esquerda para a direita): Antonio Bias Bueno Guillon,
diretor-presidente da FAAP; Ruy Amaral; Germán Garcia da Rosa; embaixador Rubens Ricupero,
diretor da Faculdade de Economia; presidente Fernando Henrique Cardoso; Celita Procópio de Carvalho
, presidente do Conselho de Mantenedores da FAAP; Enrique Iglesias; Abraham Lowenthal, do Pacific Council
on International Policy, Américo Fialdini Jr., diretor-tesoureiro da FAAP; embaixador Sergio Amaral, diretor do Centro de Estudos Americanos; Victor Mirshawka, diretor-cultural da FAAP; e Luiz Alberto Machado, vice-diretor da Faculdade de Economia.