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VIII Semana de Relações Internacionais

Mantendo a tradição, a Faculdade de Economia da FAAP promoveu a 8ª edição da Semana de Relações Internacionais, que teve, como tema geral, A Agenda Internacional, com a seguinte programação:

Segunda-feira  dia 24 de Março
Tema: Mudanças no Clima
Prof. José Goldemberg - USP

Terça-feira dia 25 de Março
Tema: O Brasil e a crise financeira internacional
Luiz Carlos Mendonça de Barros - MB Associados

Quarta-feira dia 26 de Março
Tema: Democracia na América Latina
Walter Pomar (PT) e Sergio Fausto - iFHC

Quinta-feira dia 27 de Março
Tema: A influência da Cultura nas RI
Matthew Shirts - OESP e Rubens Ewald Filho - FAAP

Sexta-feira dia 28 de Março
Tema: Uma nova Guerra Fria?
Virgílio Arraes - UNB e Salvador Raza - Facamp

Abrindo a programação da Semana de RI, o professor José Goldemberg falou com os alunos sobre o tema que mais tem gerado discussão ultimamente, as mudanças climáticas. Tendo por base seu extenso currículo como professor de física, pesquisador, reitor da Universidade de São Paulo, e diversas passagens por órgãos do Executivo estadual e federal na área de meio–ambiente, o palestrante deu uma verdadeira aula sobre o tema.

Ele iniciou sua exposição dizendo que a humanidade, ao atingir seis bilhões de pessoas, tem hoje a capacidade de alterar o clima da Terra. Comparável às forças geológicas, a população mundial é capaz de modificar o ambiente natural e causar danos irreversíveis. É possível afirmar isso porque a concentração de dióxido de carbono na atmosfera, que antes da revolução industrial era de 0,3%, hoje já está em 0,4%. Isso pode parece pouco, mas já acarretou, segundo Goldemberg, um aumento de 0,6 grau na temperatura média nestes últimos cento e quarenta anos, e uma elevação do nível do mar de um a dois milímetros por ano. As previsões são, se continuar nesse ritmo, que a temperatura suba de dois a cinco graus, e o nível do mar em um metro até o fim deste século, o que seria uma catástrofe porque há países que têm territórios com apenas meio metro acima do nível do mar, como algumas ilhas do Pacífico que já estão desaparecendo.

Com esta introdução ao problema mundial, Goldemberg passou a descrever o que os governos já fizeram e estão fazendo para enfrentar essa realidade tão grave. As negociações começaram em 1992, durante a Rio 92, com a Convenção do Clima, quando os grandes emissores se comprometeram a chegar no ano 2000 com as emissões equivalentes ao ano de 1990, sendo que não haveria limites para os países em desenvolvimento. O maior problema foi conseguir negociar metas concretas a serem atingidas, como foi conseguido com o Tratado de Kyoto, mas que, por conter limites, levou à sua não ratificação por parte dos Estados Unidos. Tendo em vista que esse tratado expira em 2012, há a necessidade de se negociar sua extensão, e por isso há um prazo para término das negociações. Para que um novo acordo esteja em prática em 2013, é necessárioque as discussões terminem em 2009, a fim de que haja tempo para que ele seja ratificado.

As perspectivas, segundo José Goldemberg, melhoraram nos últimos meses. Hoje já é possível perceber mudanças de posturas no atual governo norte-americano, e as propostas dos três candidatos à Casa Branca são muito favoráveis à assinatura e ratificação de um acordo sobre o clima. Contudo, a postura da China hoje é fundamental, já que esse país passou a ser, desde o ano passado, o maior emissor de gases que provocam o efeito estufa. Outro fator importante destacado pelo palestrante foi em relação à política equivocada d diplomacia brasileira diante destas negociações. Segundo José Goldemberg, o Itamaraty ainda acha que limitar nossas emissões prejudicaria o desenvolvimento econômico. Esta visão, ainda segundo o palestrante, não leva em consideração que há a possibilidade de se poder saltar níveis tecnológicos e conseguir produzir sem poluir.

O segundo dia teve como tema o Brasil e a crise financeira internacional, e como palestrante, Luis Carlos Mendonça de Barros. Graduado em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo e com doutorado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), exerceu a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no período de 1995 a 1998, e foi ministro de Estado das Comunicações em 1998, portanto um profissional que vivenciou no Executivo as relações de causa e efeito da atividade econômica interna, e sua inserção no cenário mundial. Difícil encontrar melhor nome para discutir a atual crise.

De forma bastante didática, apresentou aos alunos dos cursos de relações internacionais e de ciências econômicas um conjunto de informações muito esclarecedoras sobre o cenário da economia brasileira, partindo do período conhecido como o do milagre econômico, passando pela crise da dívida externa da década de 1980, pela abertura da economia brasileira em 1990, e chegando às perspectivas do cenário brasileiro e mundial em 2015, ressaltou a importância da carreira escolhida pelos estudantes presentes, pela necessidade que o Brasil, como futura quarta economia mundial, necessitará de profissionais cada vez mais aptos a enxergar a intrincada interdependência entre os países.

Esta expectativa de crescimento econômico foi apresentada pelo palestrante quando foram mostradas as perspectivas de evolução das economias que compõem o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), projetadas para os próximos sete anos. Ele ressaltou que ao longo desse período o Brasil deixará de ser apenas o centro da América Latina para ser um pólo dinâmico nas décadas vindouras no cenário mundial.
Mas para que se chegasse a essa condição, muita “lição de casa” teve que ser feita, a partir de governos passados. O combate à inflação foi o primeiro passo para retomar o processo de crescimento e a manutenção da estabilidade da moeda. Hoje se destaca a importância das reservas internacionais, que tiram a fragilidade externa brasileira, permitindo a eliminação da visão “tacanha” de protecionismo nacional, para uma visão estratégica de ser um Brasil competitivo no mundo aberto, criando um período de euforia, destacando-se empresas brasileiras partindo para concorrer com empresas externas.

Luis Carlos Mendonça de Barros, apesar dos cenários favoráveis, aponta para alguns desafios, como a necessidade premente do governo começar a reduzir a carga tributária, para dar maior sustentabilidade à economia brasileira. Destaca ainda que a China mudou o quadro da economia mundial, com perspectivas de se tornar a maior economia em termos econômicos, já em 2015, segundo seus critérios e suas projeções apresentadas.

Ao final de sua apresentação, dando maior ênfase à crise financeira internacional, destacou o importante papel que o presidente do Federal Reserve System (FED) desempenha nestes momentos de crise, e ressaltou as qualidades do atual governor Ben Bernanke, a pessoa, em sua opinião, a mais qualificada para tirar a economia americana da “crise”. Para ilustrar citou a frase de um ex-presidente do FED que dizia, muitos anos atrás: “num momento da festa temos que tirar o pote de ponche antes que a coisa fique fora de controle”.

O terceiro dia de palestras foi um dos que mais prendeu a atenção da platéia. O tema da democracia na América Latina desperta muita discussão, e debatido por dois grandes palestrantes e oradores, só poderia resultar em uma grande aula para todos.  Valter Pomar, Secretário de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores e Doutor em História pela Universidade de São Paulo, e Sergio Fausto, cientista político e responsável pela área de estudos e eventos do Instituto Fernando Henrique Cardoso, proporcionaram um debate do mais alto nível.

Valter Pomar iniciou sua fala destacando três fenômenos relevantes para a compreensão do atual contexto político latino-americano: a hegemonia do sistema de produção capitalista; o declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica; e a coincidência de governos de esquerda, ou progressistas, democraticamente eleitos a partir de 1998. Seguindo a linha de raciocínio, Pomar salientou a resistência imposta pelos EUA ao declínio da influência que exerce sobre os países da América Latina, o que impõe, a tais países, a necessidade de integração, com o fim de que sejam atendidos interesses autônomos e endógenos. Paralelamente, considerou que a coincidência de governos de esquerda se deve à imposição, no passado, de políticas neo-liberais, as quais geraram sociedades amplamente desiguais, sendo que seriam os países mais afetados por tais políticas os que, hoje, apresentam lideranças esquerdistas mais entusiasmadas, enquanto que os países que apresentaram anteriormente maior resistência ao neo-liberalismo, hoje possuem governos mais moderados. Finalmente, Pomar concluiu que o debate democrático na América Latina converge, na atualidade, para a necessidade de promoção de um modelo político na região que apresente potencial de inovação, para o que, segundo o palestrante, há que se combinar os benefícios extraídos tanto do modelo capitalista herdado, quanto da revolução socialista, gerando ruptura à ordem vigente, sem que sejam repetidos determinados erros do passado.

Sérgio Fausto, a seu turno, optando por aproximar sua contribuição às idéias manifestadas pelo palestrante que lhe antecedeu, contestou as semelhanças que aquele atribuiu às lideranças latino-americanas, bem como afirmou a impropriedade do título de progressista atribuído a alguns governantes da região. Para o cientista político, nem todos os governos latino-americanos são semelhantes, e a alguns descabe a etiqueta progressista. Afastou, por exemplo, a liderança chilena da venezuelana, assim como a última da brasileira, destacando que a proposta venezuelana, porquanto consubstanciada em intervencionismo que, em seu entendimento, assume caráter autoritário, desmerece o adjetivo que lhe fora atribuído, eis que culmina por gerar fraturas em lugar de reduzir desigualdades sociais. Citando, a título ilustrativo, a transição chilena pela concertação pós-ditadura militar, Fausto salientou que há alternativas harmônicas à ruptura na região, propondo que as regras formais imperem e integrem o debate democrático da atualidade, sob pena de se colocar em risco valores fundamentais a uma vida digna.
Depois das exposições dos palestrantes, o debate continuou intenso, gerado, inclusive por muitas questões levantadas pela ampla participação e interesse demonstrados pela platéia.

Dando início à sessão do quarto dia da Semana de RI, Matthew Shirts, articulista do jornal O Estado de S. Paulo e editor da prestigiosa revista National Geographic nasceu e se formou nos Estados Unidos mas está radicado no Brasil desde a década de 80 e se confessa um apaixonado pelo País.

Antes de entrar propriamente no exame do tema “A cultura nas relações internacionais”, Matthew Shirts chamou a atenção para um fato que ele considera essencial, a relação de amor e ódio que o brasileiro tem com o Brasil e consigo mesmo. Essa relação se traduz pela não aceitação, sobretudo pela parte mais privilegiada da população, do lado subdesenvolvido do País, representado pela pobreza, pela desigualdade, pela violência, pelo baixo nível educacional. Nelson Rodrigues sintetizou esse espírito de forma brilhante na expressão “complexo de vira-lata”. Por outro lado, o brasileiro sente enorme orgulho por aqueles aspectos da sua cultura dos quais ele tem consciência de serem  admirados no mundo todo, tais como seu futebol, seu carnaval com suas escolas de samba e sua ginga, para citar apenas alguns deles.

No plano das relações internacionais, essa característica do brasileiro se reflete numa postura extremamente interessante: o Brasil costuma virar as costas para a América Latina – um dos símbolos mundiais do subdesenvolvimento – e procura estreitar cada vez mais sua relação com os Estados Unidos e a Europa, que representam o máximo em padrões de desenvolvimento. Essa postura foi durante muito tempo uma marca profunda das ações do Brasil nas relações internacionais, que só vem sendo modificada mais recentemente pela intensidade e rapidez com que o País se integrou na globalização, principalmente depois dos anos 80.

Rubens Ewald Filho, consagrado crítico de cinema e teatro, concordou em grandes linhas com a análise de Matthew Shirts, e fez duas considerações extremamente importantes. A primeira delas dizendo respeito à enorme influência do cinema americano sobre os hábitos e costumes do Brasil, que se estende por mais de um século, remontando às primeiras produções de Hollywood. A segunda consideração está relacionada ao caráter ainda um tanto amadorístico com que os brasileiros se dedicam às atividades culturais, típicas de quem se envolve com a empresa em que trabalha como se fosse parte integrante da mesma. De forma inteligente e sutil, Ewald Filho afirmou que do show business, o brasileiro que se dedica às atividades culturais só consegue enxergar o show, mas não o business. A superação desse comportamento relativamente amador é condição sine qua non para que o Brasil possa ter uma participação mais ativa e destacada no universo corporativo da cultura em geral e, em particular, cinematográfica.

O último dia de debates teve como tema central a possibilidade do mundo estar caminhando para uma nova guerra fria.  Salvador Raza, iniciou o debate expondo a percepção americana, que conhece muito bem por ser professor da National Defense University e consultor do Pentágono há muitos anos. Nesta linha, segundo o palestrante, é necessário entender que na virada da década de 1980 para 1990 houve um boom no desenvolvimento tecnológico que forçou mudanças na estrutura militar, que, junto às novas demandas do pós-guerra fria, transformou radicalmente as forças armadas americanas, levando-as a ter uma capacidade de resposta mais rápida e ainda ter projeção global.

Essa nova estrutura foi posta em teste na primeira com a primeira guerra do golfo em 1991, e ficou mais evidente na segunda guerra, em 2003. Mas a invasão do Iraque não pode ser entendida somente dessa forma, segundo Raza, é necessário compreender três fatores que levaram à contestada postura americana. Primeiro foi o lobby da indústria de defesa pressionando por maiores gastos, já que há uma crise na sua consolidação; segundo, a vontade política de intervir no Iraque, com a motivação estratégica de fugir da dependência saudita, junto com a capacidade bélica de fazer a intervenção; e por último, a pressão do gap tecnológico para os meios de transporte, ou seja, a falta de uma nova fonte de energia que substitua o petróleo leva à necessidade de maior acesso às fontes de hidrocarbonetos.

Há dois anos os americanos já sabem que perderam o Iraque, e devido à essa realidade é que caiu o então secretário de Defesa Donald Rumsfeld, e houve uma reformulação na doutrina militar americana. Essa nova visão prevê o envolvimento das forças armadas na reconstrução social e política de países, e isso deve nos dar uma alerta, defendeu Salvador Raza, já que aqui no Brasil, quando houve esse tipo de envolvimento, resultou em golpe militar. Por isso, finalizou o palestrante, a visão de que segurança era baseada em disputa de território acabou, e hoje está voltada à segurança energética, ambiental e tecnológica, principalmente porque nenhum outro país pode se opor às forças armadas americanas.

O último palestrante do evento foi o professor na Universidade de Brasília, Virgilio Arraes, que começou destacando que o mundo vive uma nova configuração de poder. Tem-se essa nova realidade porque, desde o século dezesseis até o fim da segunda guerra mundial, houve um respeito formal à soberania dos Estados. A guerra da Iugoslávia em 1999 pode ser entendida como uma mudança no tipo de conflito, já que o motivo para o ataque ocidental foi a necessidade de defender os direitos humanos naquele país. Essa intervenção estava ligada à idéia do fim da história, segundo a qual na nova ordem internacional só haveria espaço para as democracias liberais, não havendo viabilidade para se contrapor a essa realidade.

A ascensão do Partido Republicano ao governo dos Estados Unidos teve impactos profundos para o sistema internacional. Segundo o professor da UnB, a visão dos republicanos de acelerar o movimento da democracia no mundo, que teria início pelo Oriente Médio, se conjugou com outros fatores que levaram à sensação de instabilidade que o mundo vive hoje. O primeiro fator é o choque da hiperpotência com a ONU; o segundo, a universalização das práticas econômicas sem que haja um organismo internacional para regulamentar esta área; o terceiro é a desterritorialidade dos tópicos da agenda internacional, através de discursos universais; o quarto é que praticamente todos os exércitos nacionais não têm como combater os chamados novos inimigos; e por fim, o aumento da violência interna e externa, experimentado por número expressivo de países, pondo em xeque a segurança coletiva. Por isso, completou Virgilio Arraes, é que hoje se tem a percepção de um mundo desordenado, já que, devido a todos esses fatores, chegou-se ao fim da idéia de uma reordenação do mundo através de uma paz negociada. Não é mais possível reordenar o sistema internacional com base, exclusivamente, nos valores ocidentais.

Para a realização da Semana de RI, a Diretoria da Faculdade de Economia contou com o valoroso apoio da Comissão Organizadora, composta pelos alunos Arthur Volponi, Cíntia Bonassi, Juliana Martins, Lívia Fernandes, Nathalia Cristófalo e Paulo José Caselato Pinto.

Embaixador Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia, falando
aos alunos e professores sobre a importância da Semana de RI.
Prof. José Goldemberg.

Flagrante da palestra do ex-ministro Luis Carlos Mendonça de Barros.


Gunther Rudzit, coordenador do curso de Relações Internacionais da FAAP abrindo o terceiro dia da Semana de RI.

Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores.


Sergio Fausto, do Instituto Fernando Henrique Cardoso.

Platéia atenta e auditório lotado: foi assim  durante toda a Semana de RI.


Matthew Shirts, do jornal O Estado de
S. Paulo e da revista National Geographic.


Rubens Ewald Filho, consagrado crítico de cinema e professor da FAAP
Pós-Graduação.


Palestra do professor Salvador Raza, coordenador do curso de RI da Facamp, tendo a seu lado a aluna Cíntia Bonassi, da Comissão
organizadora da VIII Semana de RI.


Professor Virgilio Arraes, da
Universidade de Brasília.