Folha Online - Ilustrada Online - 19/08/2002


Exposição apresenta arte chinesa e coleção de objetos do cotidiano

ALEXANDRA MORAES
Da Folha de S.Paulo

Em quase 5.000 anos de cultura, a China legou ao mundo uma infinidade de invenções e reinvenções, dentre as quais são freqüentemente citados o papel e a pólvora, mas onde também deveriam figurar o insubstituível sorvete e as milhares de quinquilharias que recheiam as bancas dos camelôs ocidentais.

A partir de hoje, a Faap traz a São Paulo extratos importantes dessa cultura milenar, na exposição "China: A Arte Imperial, a Arte do Cotidiano, a Arte Contemporânea", que retraça a arte chinesa desde o período neolítico até as mais recentes videoperformances de seus artistas.

A maioria dos muitos bronzes, cerâmicas, esculturas, obras de arte contemporâneas e objetos do cotidiano não vem, no entanto, do país mais populoso do mundo.

O módulo da Arte Imperial possui 110 peças provenientes do Musée National des Arts Asiatiques -°Guimet, museu parisiense especializado em arte asiática, e outras cinco vindas de Portugal. A Arte do Cotidiano é composta por objetos coletados em quase 40 anos de trabalho de François Dautresme, bem como 80% da coleção de Arte Contemporânea pertence ao francês Jean-Marc Decrop.

Para representar a Arte Imperial, o museu Guimet cedeu peças que datam do quinto milênio a.C., resquícios já de uma protocivilização chinesa. "Tentamos retraçar o essencial da arte chinesa nas épocas históricas desde o neolítico até o século 18", diz Catherine de la Court, curadora do museu Guimet. "Foram selecionados objetos representivos, que são relativamente poucos, mas que podem dar a idéia do que era cada período, mostrar as mudanças."
Boa parte dos objetos vem de túmulos e representa a visão dos antigos chineses sobre a morte. "Os chineses acreditavam que as pessoas continuavam a viver depois da morte, mas eles iam ainda um pouco mais longe, na medida em que no túmulo é reconstituído todo o entorno doméstico do defunto enquanto estava vivo", explica de la Court.

Na primeira sala, está a cerâmica neolítica, onde se destacam os vasos e potes que eram utilizados para armazenar comida e bebida. "O que diferencia o neolítico chines do neolítico das outras regiões é o trabalho do jade, e aí estamos tangenciando o mundo religioso. O jade é associado à imortalidade, à longevidade, uma das preocupações chinesas", diz a curadora.

Depois de períodos de bronze e da imposição da cerâmica, vêm as obras produzidas sob a dinastia Tong, considerada, segundo de la Court, "o apogeu da arte antiga chinesa, na medida em que o império está em sua maior extensão, uma China quase tão grande quanto a atual. Havia relações contínuas com os povos do norte e do oeste, e do oeste eles trazem cavalos diferentes dos pôneis que tinham; eram cavalos grandes, elegantes, muito rápidos. Os chineses adoram o cavalo, animal considerado por eles mítico".

A última sala é dedicada aos homens letrados dos séculos 17 e 18, personagens importantes na sociedade chinesa por executarem justamente uma das mais importantes artes orientais: a caligrafia.

Num salto de alguns séculos, a mesma caligrafia é retomada por artistas contemporâneos, como um resgate da tradição pré-maoísta, em releituras atuais. Reunidos em um só espaço e utilizando tinta e papel, videoinstalação ou fios de cabelo, esses trabalhos "são tentativas de transformar a caligrafia em uma arte muito contemporânea", segundo o curador e colecionador Jean-Marc Decrop.

A coleção de arte contemporânea chinesa impressiona pela alta qualidade, desde os trabalhos dos anos 80, produzidos no afã de expurgar as limitações impostas pela Revolução Cultural de Mao Tse-tung (como a tela "Dois Camaradas e Um Bebê Vermelho", de Zhang Xiaogang, sobre a política do "filho único" adotada no país a partir dos anos 70), até as recentes videoinstalações, suporte utilizado à exaustão nas grandes mostras pelo mundo afora, mas extremamente bem localizadas entre os registros fotográficos dos chineses dos anos 90 e 2000.

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