Uma piada contada por Freud:
"Você está mentindo ao me dizer que vai para
a Cracóvia apenas para que eu acredite que vai para Lemberg,
mas na realidade você está indo mesmo para a Cracóvia".
Trata-se de dois judeus que se conhecem e se encontram numa viagem
de trem, mas trata-se principalmente de um jogo retórico
no qual eles estão inseridos. Um jogo apresentado por Lacan:
o jogo de "par ou ímpar" (even and odd) relatado
pelo detetive Dupin, personagem de Edgar Allan Poe, sobre um impressionante
garoto que na escola ganhava todas as partidas pela mera suposição
da astúcia ou estupidez do adversário. O jogo começa
com o "eu sei que você sabe" para infinitas dobras
de "eu sei que você sabe que eu sei". Mudando
de contexto, é esse mesmo o jogo da lógica das aparências
(semblant para Lacan) que revela um descolamento da linguagem
em relação ao objeto como nos paradoxos lógicos
que encontram o sentido no não-sentido. Assim como o caso
"Cracóvia e Lemberg" é uma piada - chamada
de "chiste sofístico" por Freud -, os paradoxos
são uma espécie de discurso da lógica e o
"par ou ímpar" um jogo. Piada, lógica
e jogo cumprem, por assim dizer, a função metalingüística.
É do código do humor que se fala quando o sofisma
dos judeus é relatado pelo terceiro-outro Freud. O jogo
do garoto relatado por Poe é usado por Lacan para falar
da intersubjetividade a partir de uma terceira cena em que se
sabe o que se passa pelo jogo intersubjetivo. Movimento evidentemente
metalingüístico, porém Lacan já estruturava
o que viria propor como saída dessa relação
que não será pela metalinguagem, mas sim pela dobra
mesma das relações duais para daí extrair
o terceiro. No sentido lacaniano, a própria metalinguagem
será uma dobra retórica, sofística da sofística.
Em contextos comunicacionais, a
relação de emissão e recepção
se revela como uma dobra conhecida e debatida: quem define a audiência
é o público receptor a quem é dirigida a
mensagem ou o emissor que, há não muito tempo atrás,
era considerado o principal fator do evento comunicacional? Essa
relação já se encontra em tal estado de proliferação
de dobras que nos provoca a resposta do irmão de Mark Twain
depois de ver sua casa destruída pelas vacas pela enésima
vez: esta situação está se tornando repetitiva!...
A questão é que bastam
duas mentes interpretantes para que esse processo possa funcionar
e funciona com duração infinita se o gozo não
for interrompido de alguma forma. No jogo do par ou ímpar,
a particularidade de even e odd na língua inglesa modula
um deslocamento de sentido, pois eles significam respectivamente
"o mesmo" e "estranho" - nas palavras de Poe,
o personagem chefe de polícia tinha a mania de chamar odd
qualquer coisa que estivesse além de sua compreensão,
vivendo dentro de uma absoluta legião de oddities. Por
similaridade de significado, essa excentricidade de odd pode ser
relacionada ao Umheimlich freudiano sem a propriedade de uma estranheza
tão aguda. O próprio Freud se lembra do espantoso
incômodo que sentiu ao ver sua imagem refletida na porta
do trem.
Estranhar, ao ponto da inquietação
tem sido cada vez mais distante dando lugar à legião
de oddities contemporâneas, de uma espécie de subjetividade
em relação direta com a dimensão da virtualidade,
que reconhece o fora como possibilidade do dentro. Ou seja, o
odd pode ser, ele mesmo, uma dobra incorporadora do Umheimlich
- que, por sua vez, já continha em si a ambivalência
do heimlich, o familiar e doméstico que se projeta em seu
contrário para captar a estranheza. Assim, as discussões
sobre o potencial de deslocamento subjetivo de textos e as produções
artísticas e intelectuais se vêem às voltas
com a mesmidade (sameness) duplicada no caráter de reconhecimento
da excentricidade. É como se o 'estranho' tivesse sido
fagocitado pelo interpretante que, por sua vez, o formatará
como 'o já conhecido'.
Pelo sim, pelo não, o processo
de reprodutibilidade se relaciona a esse fenômeno, pois
ele tem e teve em si um potencial de deslocamento do familiar
pelo familiar mesmo, como no caso do Kitsch que aplaudiu o objeto
em queda do seu lugar de "Coisa". Rosalind Krauss localiza
um momento privilegiado em que o fenômeno se coloca a respeito
de Rodin que ao favorecer a industrialização do
trabalho artesanal favorece "a corrupção da
estética manual pela reprodução mecânica
". Evidentemente trata-se da questão da obra e do
original, na medida em que a reprodução é
a obra. Nesse sentido, a reprodução pode ser mais
familiar que o próprio original. Se há estranhamento
é na familiaridade que se perguntará se a reprodução
"sabe-se como reprodução que se sabe como obra".
Em Freud, o Umheilich contém
o aspecto de duplicidade que remeterá à compulsão
à repetição e em Lacan, o odd propõe
a relação do par ou ímpar para falar da intersubjetividade.
Então, quando se compara o odd de Lacan com o Umheilich
de Freud haverá de se perceber que muitos aspectos são
incongruentes e eles vão ao encontro dos propósitos
de seus autores. Em sua construção do caráter
de estranhamento, Freud apresenta um texto com demônios,
almas, mortos e membros vivos separados do corpo humano. Mas lembra
sempre a possibilidade de que essa ficção, que fica
assegurada pelo sentimento de medo como ponto de apoio, possa
se resvalar para o cômico: um dos fenômenos do riso
que Freud apresentou como estruturalmente dual. Nesse sentido,
um mecanismo que proporcionaria prazer pela economia do sentimento
de medo. Trazendo o evento freudiano para esse raciocínio,
o sujeito, para não sentir medo, se refugiaria antecipadamente
no cômico.
Odd and simple, diz Dupin.
A oddity, como explicada pelo personagem de Allan Poe, é
uma fórmula simples que fez toda a fama de Maquiavel e
Rochefoucault pela identificação com o adversário
(leitor) antecipando-lhe um lance na jogada. É dentro dessa
perspectiva que se pode vislumbrar o odd da intersubjetividade
nos tempos contemporâneos. Não haveria mais uma preocupação
de uma adequação da imagem ao referente, ou seja,
não se acredita mais que o objeto possa ser substituído
pelo seu referente. Assim, o Umheilich não teria um potencial
de estranhamento pela dinâmica do objeto deslocado em busca
da representação, a não ser pela familiaridade
com a série de familiaridades em relação
aos ímpares dessa mesma série. Talvez, medo e fobia
sendo reciclados em pânico e cômico, um excêntrico
acomodado nas propriedades do odd.
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