nš 10 - 2º semestre de 2002 
 




A r t e M o d e r n a:
Identidades entre a Crítica
e o D i s c u r s o Ps i q u i á t r i c o
Luís Ferla

A difusão da revolução industrial nos séculos XIX e XX produziu uma nova paisagem urbana. As cidades explodiram. Londres, de 1851 a 1881, passou de 2,5 a 3,9 milhões de habitantes. Paris, no mesmo período, praticamente duplicou seu milhão de habitantes. Berlim, de 1849 a 1875, passou de 378 mil a 1 milhão. E São Paulo, uma pacata vila em 1880, com 35 mil habitantes, se torna a grande cidade com 600 mil em 1924. A miséria silenciosa e diluída da imensidão rural se transforma na miséria ostensiva, assustadora e indecente da grande cidade. Multidão miserável... mas também multidão anônima. A
comunidade não existe mais. Enfim, onipresença da miséria e do desconhecido. É o perigo, o medo da multidão, o grande fantasma das grandes cidades da sociedade industrial. Nasce o "medo urbano, o medo da cidade" (1).

A defesa da sociedade, então, se torna a preocupação de todo homem de bem. Os
cientistas são chamados a apresentar armas. Têm excepcional autoridade para tal: a ciência da segunda metade do século XIX em diante já está alçada à principal referência da verdade, favorecida pelo fortalecimento do laicisismo e lastreada ainda pelo papel decisivo que cumpriu na segunda revolução industrial, aquela do aço, do petróleo e da eletricidade. E dentre os homens de ciência, são os médicos os mais habilitados a cumprir a tarefa, particularmente os psiquiatras. Já acostumados desde há tempos a freqüentar os salões da justiça, convocados a atestar a sanidade mental de supostos criminosos, agora deveriam fazer mais do que isso. Não bastava mais cientificar se o examinado possuía consciência de seus atos quando do momento do crime, mas também havia que se averiguar sua periculosidade.

Foucault faz a genealogia desse poder psiquiátrico (2) . Para ele, o estudo do crime passou a ser secundário, e o criminoso, o objeto privilegiado. Todo um conjunto de saberes especializados vai se ocupar do criminoso, do delinqüente. A determinação de sua periculosidade não vai, portanto, prescindir de métodos científicos (3), antes vai privilegiá-los. E o índice da periculosidade vai ser fornecido pelo grau de anormalidade. Torna-se científico o antigo e universal preconceito que vê na diferença a ameaça. A anomalia se torna índice de periculosidade, e vai ser procurada tanto no corpo (4) quanto no espírito. O homem anormal é um todo coerentemente anormal. A desproporção entre altura e peso é tão suspeita quanto a epilepsia ou a paranóia. E quando a anomalia é confrontada com o pano de fundo das idéias triunfantes do progresso e do evolucionismo da época, surge a noção de degeneração. O corpo anormal implica num comportamento anormal, e ambos denunciam a degeneração. Espécie de contra-mão da marcha evolutiva da história natural, mas que por isso mesmo só a confirma, o degenerado é o perigo que a sociedade deve temer. E os psiquiatras, os homens devidamente treinados para identificá-lo em meio à multidão.

Imenso campo de atuação. Não mais os


A Boba. Anita Malfatti. 1915-16.
(Acervo do MAC-USP)