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A r t e M o d e r
n a:
Identidades entre a Crítica
e o D i s c u r s o Ps i q u i á t r i c o
Luís Ferla
A difusão
da revolução industrial nos séculos XIX e XX
produziu uma nova paisagem urbana. As cidades explodiram. Londres,
de 1851 a 1881, passou de 2,5 a 3,9 milhões de habitantes.
Paris, no mesmo período, praticamente duplicou seu milhão
de habitantes. Berlim, de 1849 a 1875, passou de 378 mil a 1 milhão.
E São Paulo, uma pacata vila em 1880, com 35 mil habitantes,
se torna a grande cidade com 600 mil em 1924. A miséria silenciosa
e diluída da imensidão rural se transforma na miséria
ostensiva, assustadora e indecente da grande cidade. Multidão
miserável... mas também multidão anônima.
A
comunidade não existe mais. Enfim, onipresença da
miséria e do desconhecido. É o perigo, o medo da multidão,
o grande fantasma das grandes cidades da sociedade industrial. Nasce
o "medo urbano, o medo da cidade" (1).
A defesa da sociedade, então, se torna a preocupação
de todo homem de bem. Os
cientistas são chamados a apresentar armas. Têm excepcional
autoridade para tal: a ciência da segunda metade do século
XIX em diante já está alçada à principal
referência da verdade, favorecida pelo fortalecimento do laicisismo
e lastreada ainda pelo papel decisivo que cumpriu na segunda revolução
industrial, aquela do aço, do petróleo e da eletricidade.
E dentre os homens de ciência, são os médicos
os mais habilitados a cumprir a tarefa, particularmente os psiquiatras.
Já acostumados desde há tempos a freqüentar os
salões da justiça, convocados a atestar a sanidade
mental de supostos criminosos, agora deveriam fazer mais do que
isso. Não bastava mais cientificar se o examinado possuía
consciência de seus atos quando do momento do crime, mas também
havia que se averiguar sua periculosidade.
Foucault faz a genealogia desse poder psiquiátrico (2) .
Para ele, o estudo do crime passou a ser secundário, e o
criminoso, o objeto privilegiado. Todo um conjunto de saberes especializados
vai se ocupar do criminoso, do delinqüente. A determinação
de sua periculosidade não vai, portanto, prescindir de métodos
científicos (3), antes vai privilegiá-los. E o índice
da periculosidade vai ser fornecido pelo grau de anormalidade. Torna-se
científico o antigo e universal preconceito que vê
na diferença a ameaça. A anomalia se torna índice
de periculosidade, e vai ser procurada tanto no corpo (4) quanto
no espírito. O homem anormal é um todo coerentemente
anormal. A desproporção entre altura e peso é
tão suspeita quanto a epilepsia ou a paranóia. E quando
a anomalia é confrontada com o pano de fundo das idéias
triunfantes do progresso e do evolucionismo da época, surge
a noção de degeneração. O corpo anormal
implica num comportamento anormal, e ambos denunciam a degeneração.
Espécie de contra-mão da marcha evolutiva da história
natural, mas que por isso mesmo só a confirma, o degenerado
é o perigo que a sociedade deve temer. E os psiquiatras,
os homens devidamente treinados para identificá-lo em meio
à multidão.
Imenso campo de atuação. Não mais os
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A Boba. Anita Malfatti. 1915-16.
(Acervo do MAC-USP)
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