nš 10 - 2º semestre de 2002 
 

A Força da Imaginação ou o Blefe do Jogador ? Entretenimento e espiritualidade na era da globalização
Martin Cezar Feijó


"De todos os venenos
capazes de viciar o testemunho,
o mais virulento é a impostura".
(Marc Bloch - Apologia da história).
"He was fake, but not entirely a fake".
(W. Somerset Maugham-
Sobre Aleister Crowley).

QUEM TEM MEDO DE PAULO COELHO? A Academia (leia-se Universidade) parece ter, pelo menos pela quantidade de trabalhos publicados como frutos de dissertações e teses sobre o escritor brasileiro que mais vendeu no exterior, ultrapassando Jorge Amado. Um silêncio significativo acompanhado por um desprezo a boca pequena: afinal um autor que tenha vendido mais de trinta e sete milhões de livros em cinqüenta e duas línguas e cento e vinte países parece não merecer consideração dos acadêmicos brasileiros. Do mundo anglo-saxônico ao islâmico, do europeu ao latino-americano, sendo exaltado por personalidades como presidentes da República dos EUA e França, políticos como Shimon Peres de Israel, escritores como Umberto Eco, atrizes de Hollywood como Julia Roberts e cantoras pop como Madonna, Paulo Coelho conta com leitores tão diversos que tem sido convidado para participar de reuniões do Fórum Econômico Mundial, em Davos e Nova York, assim como foi sintomaticamente esquecido pelo Ministério da Cultura do Brasil quando do encontro de escritores brasileiros com escritores franceses, tendo que o governo francês formular oficialmente o convite para condecorar o escritor brasileiro mais lido na França.

Mas da parte de Paulo Coelho a recíproca é verdadeira: ele considera uma posição política "contribuir com a mudança do que eu chamo de Academia, ou seja, o saber convencional, fossilizado, burocrático, que se acha possuidor da única sabedoria. O poder dos privilegiados. É preciso voltar a deixar livre a criatividade, dar voz ao homem comum, considerar que não devem existir privilegiados do saber que se outorgam títulos e méritos para impor sua cultura aos outros".(1) Medo, ressentimento ou preconceito, uma coisa é certa: a Academia no bom sentido, e não no sentido pejorativo, não pode se furtar ao debate democrático nem temer um tema da maior relevância. Tem razão nesse sentido o escritor Juan Arias ao afirmar que "Paulo Coelho é mais que um simples escritor. É também um fenômeno social e cultural que merece ser objeto de estudo".(2) Mesmo sendo difícil aceitar que ser escritor seja uma coisa simples, o que o jornalista


Paulo Coelho