nº 10 - 2º semestre de 2002 
 

M a m ã e,
e s q u e c e r a m d e m i m . . .
Máximo Barro

A Semana de Arte Moderna foi composta para escarnecer e não pode ser entendida de outra forma. Senão, não fariam algazarra. Senão, não haveria Manifesto. Senão, não haveria agressão. Nós tacamos fogo na mataria, porque não se planta sem derrubar. Felizes os que vierem depois de nós para colher o que plantamos.(1)

Os novos pediam passagem. Queriam participar ativamente do que eles entendiam como novas diretrizes, em conteúdo e forma. Para isso empregavam o costumeiro método de razia ao estabelecido. É claro que poderiam chegar a uma igualdade de importância com os antigos empregando métodos suasórios, contudo, sabiam que chegariam mais rápido aos seus desígnios pela demolição e achincalhamento dos adversários.

Em 1922 aquele método não constituía novidade brasileira principalmente para os organizadores. Apesar deles exigirem uma arte brasileira, quase folclórica - pouco antes Menotti Del Picchia escrevera Juca Mulato - todos estavam sedimentados à sombra do europeismos, a França em especial, que alguns, Oswald de Andrade e Sergio Milliet, até haviam visitado anteriormente. Todos dominavam o francês como língua mãe. Sergio Milliet praticamente não escrevia em português e Guilherme de Almeida escrevera a peça teatral, Mon Coeur Balance.

Porém, contrariamente ao esperado, os escândalos da Semana não tomaram como norte o dissídio de querelas acontecidas entre naturalistas, impressionistas, o Manifesto dadaísta ou as estrepolias organizadas que Tristan Tzara, Picabia, Eggeling, Richter, Hans Arp, Breton, Aragon, Soupault, praticaram, primeiramente, no cabaré Voltaire, em Zurique,
a partir de 1916, e, posteriormente, Paris, em 1918.

O guia espiritual e material da Semana foi o Manifesto Futurista do italiano educado na França, Marinetti, editado em 1909, trazido em 1913 por Oswald que, juntamente com Mario de Andrade, Menotti del Picchia, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros que, mais tarde, negarão terminantemente a filiação, apesar das flagrantes evidências, principalmente a de Mario, apresentado nas páginas do Jornal do Commercio, por Oswald, no famosissimo artigo, "Meu Poeta Futurista".

No campo teórico, as proclamações da Semana têm frases inteiras do Manifesto Futurista e nada do dadaísta. No campo prático, nas 3 noitadas da Semana, descritas pelos participantes e assistentes como escandalosas, ninguém se atreveu, como os dadaístas, a ler manchetes do Correio Paulistano ou do O Estado de S. Paulo, proclamando-as como poesia. Eles declamaram ortodoxamente suas poesias, algumas, inclusive, pouco revolucionárias. Não fizeram ruidera com pratos, garfos e panelas, classificando aquilo como música. Villa Lobos regeu normalmente suas partituras e Guiomar

"O guia espiritual e
material da Semana
foi o Manifesto
Futurista do italiano
educado na França,
Marinetti, editado em
1909."