nš 10 - 2º semestre de 2002 
 

M o d e r n i s m o n o B r a s i l :
o signo Anita Malfatti-uma aproximação
Omar Khouri

Foto de Anita Malfatti jovem. C. 1912.
Singularíssima presença nas Artes Plásticas do Brasil, Anita Malfatti (São Paulo 1889-1964) contribuiu para a instauração do Modernismo no País, trazendo um repertório fundamentalmente expressionista, com obras produzidas fora, durante cerca de dois anos e meio, época, ainda, de formação/aprendizagem. Sua grande contribuição para nossas artes se resume a trinta e poucos trabalhos. Trabalhos da melhor qualidade. A Boba, pintura a mais radical de quantas fez, dá uma medida de sua grandeza.



 




Foto de Anita Malfatti
jovem C.1912.

Em inícios do século XX, na Europa - área da qual nossa cultura era em parte subsidiária, mormente naquele departamento que qualificamos como o das altas manifestações da cultura, o dos procedimentos eruditos - as coisas explodiam, as Artes davam prosseguimento à revolução de linguagens que havia tido início em finais do século XIX (bastaria citar os desdobramentos do Impressionismo e a obra Un coup de dés, de Mallarmé...). No Brasil, que, com suas diferenças regionais se encaminhava em direção a um certo progresso (localizado em áreas específicas) assistiam-se, ainda, às últimas manifestações de uma Arte e Literatura originadas no século XIX: época, realmente, crepuscular, mas que começaria a ser minada por processos que apontariam novos caminhos no campo da criação artística em geral. Para a eclosão do chamado Modernismo no Brasil, foi pioneiro e fundamental o papel das Artes Plásticas; melhor dizendo, da Pintura. É que esta teve como que a incumbência de despertar interesse e consciência de que mudanças não só se faziam necessárias, como eram inevitáveis.

O ano de 1917, no Mundo e no Brasil - plena Primeira Guerra Mundial - foi marcado por fatos/processos importantíssimos: ano em que os EUA entraram na Guerra ao lado da Entente, ano da Revolução Bolchevique, que acabou por tirar a Rússia da Guerra e se empenhou em implantar o Socialismo no país; transcorria DADA, na Europa... (1) No Brasil, país praticamente fora da guerra, mas sofrendo alguns de seus efeitos, observavam-se transformações: do incremento à implantação de estabelecimentos industriais, às reivindicações que tomaram a feição de greves.(2) O ano de 1917, no campo de nossa cultura, assinalou eventos importantes, como a publicação de A Cinza das Horas, de Manuel Bandeira e, o que teve maiores repercussões, a exposição da pintora Anita Malfatti a qual, provocando reações adversas, como a de Monteiro Lobato (3), fez pensar, arregimentou pessoas, instigou, deu início propriamente ao nosso Movimento Modernista. Meu propósito é fazer uma abordagem da história da mulher que morreu duas vezes, ou seja, de Anita Malfatti. (4) Era o início do início quando, em