nş 10 - 2º semestre de 2002 
 


Nydia Licia em "A Importância de ser Prudente", de Oscar Wilde.
Dir.: Luciano Salce. 1950.
Foto: Fredi Kleemann

N i n g u é m  s e  l i v r a
d e  s e u s  f a n t a s m a s

Martin Cezar Feijó

Ninguém se livra de seus fantasmas, e nem sempre a presença deles pode ser encarada como um problema, uma experiência sobrenatural, ou mesmo algo assustador, principalmente quando eles estão vivos na cultura de um povo, nas obras que deixaram ou na pena de uma escritora talentosa, de uma atriz excepcional, de uma mulher que resolveu remexer seu baú de recordações num livro emocionante e bem escrito, numa língua que nem foi sua língua original, mas cujo domínio é inegável. Nydia Licia, nascida de família judia em Trieste, na Itália, em pleno período de fortalecimento do governo fascista de Benito Mussolini, o que obrigou sua família a emigrar para o Brasil, num contexto histórico de grandes deslocamentos humanos, é a autora do livro que está sendo tratado aqui.

Professora há muitos anos no departamento de Rádio e Televisão na FACOMFAAP, ajudando a formar várias gerações de jovens profissionais, a atriz Nydia Licia realiza uma dupla proeza no livro Ninguém se livra de seus fantasmas (São Paulo, Perspectiva, 2002): um documento precioso para a história da cultura brasileira, extraordinariamente bem escrito, o que lhe dá também um alto valor literário. Há algo de Hamlet no título do livro, e há muito de Shakespeare na qualidade do texto. É o fantasma do pai que leva o jovem príncipe dinamarquês a tomar uma posição frente aos acontecimentos de seu país, assim como são as pessoas que conviveram com Nydia Licia, como pais, parentes, amigos e esposo - o ator Sérgio Cardoso, que fez uma interpretação antológica de Hamlet, entre outros momentos marcantes no teatro e televisão - que a levam a um esforço intelectual digno de um Proust a reconstituir uma época de grandes buscas e grandes realizações: o imediato pós-segunda guerra do século XX, período que foi chamado pelo historiador Eric Hobsbawm, em seu "Era dos Extremos", como um período dourado, de grandes transformações em todos os níveis, dos tecnológicos aos culturais.

O livro de Nydia Lícia levou quase dez anos para ser concluído, e isso se nota na elegância da narrativa, na estrutura dos capítulos, e no rigor da informação. Destaca-se até uma intenção da autora nos momentos diversos do livro. Na primeira parte, com imagens cinematográficas de seu retorno a Trieste, acompanhada do marido e filha, prevalece a emoção nas recordações da infância e juventude, "envoltas numa atmosfera de carinho misturado com saudade, que esfuma as lembranças mais longínquas", como a própria autora destaca na passagem de um momento a outro. Mas a partir da fase adulta, as informações são declaradamente mais precisas, "corretas nos mínimos detalhes, pois ainda estão vivos na memória dos que participaram deles", revela Nydia Licia com arguta precisão.

O texto parecia não ter o objetivo da publicação no momento em que foi escrito; apenas umas poucas pessoas tiveram acesso ao resultado, entre elas o professor Flávio Porto (colega da FAAP e pesquisador da história do rádio e da televisão no Brasil), que com sua