N i n g u é
m s e l i v r a
d e s e u s f a n t a s m a s
Martin Cezar Feijó
Ninguém
se livra de seus fantasmas, e nem sempre a presença deles
pode ser encarada como um problema, uma experiência sobrenatural,
ou mesmo algo assustador, principalmente quando eles estão
vivos na cultura de um povo, nas obras que deixaram ou na pena
de uma escritora talentosa, de uma atriz excepcional, de uma mulher
que resolveu remexer seu baú de recordações
num livro emocionante e bem escrito, numa língua que nem
foi sua língua original, mas cujo domínio é
inegável. Nydia Licia, nascida de família judia
em Trieste, na Itália, em pleno período de fortalecimento
do governo fascista de Benito Mussolini, o que obrigou sua família
a emigrar para o Brasil, num contexto histórico de grandes
deslocamentos humanos, é a autora do livro que está
sendo tratado aqui.
Professora há muitos anos no departamento de Rádio
e Televisão na FACOMFAAP, ajudando a formar várias
gerações de jovens profissionais, a atriz Nydia
Licia realiza uma dupla proeza no livro Ninguém se livra
de seus fantasmas (São Paulo, Perspectiva, 2002): um documento
precioso para a história da cultura brasileira, extraordinariamente
bem escrito, o que lhe dá também um alto valor literário.
Há algo de Hamlet no título do livro, e há
muito de Shakespeare na qualidade do texto. É o fantasma
do pai que leva o jovem príncipe dinamarquês a tomar
uma posição frente aos acontecimentos de seu país,
assim como são as pessoas que conviveram com Nydia Licia,
como pais, parentes, amigos e esposo - o ator Sérgio Cardoso,
que fez uma interpretação antológica de Hamlet,
entre outros momentos marcantes no teatro e televisão -
que a levam a um esforço intelectual digno de um Proust
a reconstituir uma época de grandes buscas e grandes realizações:
o imediato pós-segunda guerra do século XX, período
que foi chamado pelo historiador Eric Hobsbawm, em seu "Era
dos Extremos", como um período dourado, de grandes
transformações em todos os níveis, dos tecnológicos
aos culturais.
O livro de Nydia Lícia levou quase dez anos para ser concluído,
e isso se nota na elegância da narrativa, na estrutura dos
capítulos, e no rigor da informação. Destaca-se
até uma intenção da autora nos momentos diversos
do livro. Na primeira parte, com imagens cinematográficas
de seu retorno a Trieste, acompanhada do marido e filha, prevalece
a emoção nas recordações da infância
e juventude, "envoltas numa atmosfera de carinho misturado
com saudade, que esfuma as lembranças mais longínquas",
como a própria autora destaca na passagem de um momento
a outro. Mas a partir da fase adulta, as informações
são declaradamente mais precisas, "corretas nos mínimos
detalhes, pois ainda estão vivos na memória dos
que participaram deles", revela Nydia Licia com arguta precisão.
O texto parecia não ter o objetivo da publicação
no momento em que foi escrito; apenas umas poucas pessoas tiveram
acesso ao resultado, entre elas o professor Flávio Porto
(colega da FAAP e pesquisador da história do rádio
e da televisão no Brasil), que com sua